Um poético, e molhado, outono

Por Miriam Sanger

Um amigo querido que vive em Israel desde a década de 80 escreveu dia desses no Facebook: “Se eu fosse poeta, só escreveria durante o outono”. Ele mora em um kibutz no norte do país, está acompanhando as flores caindo das árvores enquanto o sol joga um tom dourado sobre todas as coisas. Provavelmente também está comemorando, como todo israelense, a cada vez que a chuva dá as caras, embora ainda não com a intensidade bíblica que haverá de se repetir em dezembro e janeiro.

Água é um assunto à parte em Israel, não tanto mais por causa da escassez – no texto do Yair Mau, “A Primeira Chuva”, dá para conhecer como é a sensação de quem não vê nem uma gota cair do céu durante mais de seis meses do ano –, mas principalmente pelo o que o país desenvolve em termos de tecnologia justamente em função dela. Israel foi o criador do sistema de microirrigação, conhecimento que é exportado pelo mundo afora. É de uma simplicidade até constrangedora: para explicar assim rapidinho, caninhos perfurados são instalados aos pés de cada planta, e a água é liberada por um sistema eletrônico que mede a necessidade de irrigação de cada trecho do solo. Outra coisa sensacional que Israel faz é reaproveitar a água utilizada em grandes cidades, como Tel Aviv, e levá-la até o Deserto do Negev, onde há uma inimaginável concentração de cultivos agrícolas (alguns dos mais famosos vinhedos daqui estão por lá, por exemplo). E os investimentos continuam, para trazer cada vez mais metros cúbicos de água de um canto ao outro do país, tornando real do sonho de Ben Gurion, de ver nosso deserto ser transformando em um generoso campo verde.

Microirrigação
Microirrigação

Campo verde é, aliás, algo que não falta no Brasil, enquanto que estas estações do ano tão bem demarcadas são um capítulo à parte para quem vem de lá. Sem entrar na questão do que isso representa para a agricultura – imaginem se o mundo não se deparasse com reviravoltas climáticas, que paraíso previsível os campos não seriam –, é uma mão-na-roda você acordar de manhã e saber exatamente qual clima enfrentará ao longo do dia, coisa que os paulistanos não conhecem. E talvez os israelenses não notem, mas o astral das pessoas também muda durante o outono.

Para começar, as ruas ganham mais vida, já que o verão esturricante faz com que todos se confinem em ambientes internos, para tentar descozinhar o cérebro que vira uma massaroca com tanto calor. No outono, estar exposto ao sol ao meio-dia deixa de ser uma atitude suicida e torna-se um prazer. A sensação é que o dia é mais longo e mais bem-aproveitado, pois o clima já não controla os seus horários. A conta de luz cai incrivelmente, com o desligamento do ar-condicionado na máxima potência, e todo mundo aproveita os finais de semana para fazer atividades ao ar livre, já que o tempo ajuda e estimula. Em resumo, tudo fica mais feliz, e a alegria dura uns dois meses. Afinal, novembro está logo aí, em dezembro a temperatura cai forte, janeiro todo mundo volta pra dentro de casa, agora com o aquecedor de ar e de água funcionando a todo vapor.

Sente-se diferença no comércio também. Logo acaba o horário de verão e a isso se junta o fato do sol se pôr mais cedo. Assim, na sexta-feira, o Shabat também se adianta, fazendo com que comércio e transporte parem por volta das duas da tarde. O dia fica curto e chega a hora de esperar outras coisas da vida.

A gente espera pelas divinas frutas de inverno (na minha casa, babamos pelos morangos e pelas uvas).

A gente espera pela neve no Hermon (a montanha por excelência dessa terra santa, lá no norte).

A gente espera pelas chuvas torrenciais, que vão alimentar as pessoas e a terra durante quase o ano inteiro de 2014.

A gente espera por Chanucá, a festa das luzes que enche de magia as casas por aqui (e acontece, nesse ano, no fim de novembro).

Enfim, é de fato uma estação de poesia, de ânimo suave e de esperança pelo melhor.

Miriam Sanger, nascida em Recife mas de sangue paulistano, formou-se em Jornalismo em 1991 pela Faculdade Cásper Líbero Chegou a Israel em julho de 2012 e vive com a filha pré-adolescente em Raanana, no centro do país. Temas ligados a cultura, judaísmo, sociedade e comportamento a interessam especialmente. Por isso, mas não só por isso, não tem dúvidas de que está no lugar certo, na hora certa. (SP).
Miriam Sanger, nascida em Recife mas de sangue paulistano, formou-se em Jornalismo em 1991 pela Faculdade Cásper Líbero Chegou a Israel em julho de 2012 e vive com a filha pré-adolescente em Raanana, no centro do país. Temas ligados a cultura, judaísmo, sociedade e comportamento a interessam especialmente. Por isso, mas não só por isso, não tem dúvidas de que está no lugar certo, na hora certa. (SP).