Uma Belém pouco cristã, entre intifadas e surtos esquizofrênicos

Makram Qumseyehm é um palestino diferente dos que estampam as capas de jornais lançando coquetéis molotov com o rosto coberto por um kefia. Veste um terno quase elegante, gravata, e fala um inglês quase perfeito, resultado de seus anos de estudo na universidade americana de Harvard.

Ah, o sr. Makran é cristão.

Antes de se sentar frente a cerca de 20 jornalistas internacionais convidados por uma ONG para uma visita à “Belém cristã”, o sr. Makran distribuiu bombons fabricados localmente, serviu café de uma garrafa térmica, colocou garrafas de água com inscrições em árabe sobre a mesa. Estávamos ali para ouvir sobre a preparação da cidade para o Natal, mas ele preferiu discorrer, pesaroso, sobre o fracasso de seu mais recente empreendimento. É um palestino com cidadania jordaniana e canadense, engenheiro civil, diz fazer parte da maior família cristã que vive hoje em Israel (acho que confundiu-se, querendo dizer “Palestina”), viveu no Kuwait até que o país não quis mais palestinos por ali (após a Guerra do Iraque), também no Canadá, também nos Estados Unidos. Parte de seus irmãos vive na Alemanha, para onde expandiram os negócios da família.

Ele diz que acreditou no sonho da paz e da prosperidade trazido pelo processo dos acordos de Oslo, e que por isso decidiu voltar à Palestina depois de mais de década vivendo no exterior. Isso há quinze anos. Desde então, sua empresa construiu prédios, praças etc., mas seu spa, inaugurado recentemente, não vai pra frente. Tudo por causa de Israel.

Uma repórter europeia perguntou: “Com ‘tudo’, o senhor quer dizer que os palestinos não têm nenhuma responsabilidade sobre a situação atual?” Ele não piscou. “Exatamente. Israel tem 100% de responsabilidade. Como os palestinos poderiam ter participação nessa situação? Estamos com as mãos amarradas. O dia que Israel decidir acabar com a ocupação, todos os problemas estarão resolvidos”.

A repórter repetiu a pergunta, incrédula. Ele se enervou. A coordenadora da ONG que nos acompanhava mudou bruscamente de assunto. Não sei se até ela está cansada dessa discussão a respeito de responsabilidades ou se queria apenas evitar que ele crescesse em seu discurso inflamado. Foi a deixa para o sr. Makran citar os “mártires” da onda de violência atual, jovens palestinos (e palestinas) que têm se aventurado a atropelar, esfaquear e atirar em civis israelenses como uma demonstração de intolerância à situação política.

Sabe propaganda do horário político? Essa foi a minha impressão.

Sr. Makran: antes das críticas, bombom, água e cafezinho.
Sr. Makran: antes das críticas, bombom, água e cafezinho.

Eu nunca havia tido a oportunidade de conversar com um palestino cristão. Ao aceitar o convite da ONG, queria entender até onde vai o medo de viver como uma minoria entre os muçulmanos, e aqui do nosso ladinho (a viagem do centro de Jerusalém a Belém dura cerca de 20 minutos e não se passa por nenhuma barreira militar). Aliás, uma minoria que se “minora” a cada dia: a porcentagem de cristãos em uma das cidades-berço do cristianismo (onde, acredita-se, Jesus nasceu) passou de 35% em 1995 para 20% em 2015 (de 20 mil para 7.500 pessoas). O mesmo processo aconteceu com os cristãos em Jerusalém (de 19% para 2% da população local, entre 1946 e hoje). Os números continuam decrescentes. O mesmo em Nazaré. A intifada é uma das motivações, obviamente. A economia estrangula-se, fica estagnada. Mas os cristãos locais reclamam também de “sufocamento” religioso e social por parte de seus conterrâneos islâmicos, sem serem de fato ouvidos. Leia mais aqui.

Em uma brisa de lucidez, o sr. Makran disse: “Como cristão no Oriente Médio, você perde dos dois lados. Aliás, as minorias sempre perdem.” Mas medo de ver sua comunidade sendo violentamente aniquilada, como acontece em países vizinhos a Israel, ele não tem. “O que acontece na Síria não acontecerá aqui justamente por causa da presença de Israel.” A lucidez logo passou, despedindo-se com a frase: “Com o fim da ocupação, não haverá problemas religiosos.” Veja reportagem sobre o tema aqui.

Essa esquizofrenia toda me confunde muito, devo admitir.

Marian e seu vovô: casar com muçulmano, nem a pau.
Marian e seu vovô: casar com muçulmano, nem a pau.

A graciosa Marian Kassis, jovem membro da família Kassis que vive em Beit Sahour (vizinhança de Belém) há gerações, também nos deu entrevista. Todos os seus irmãos moram na Alemanha ou nos Estados Unidos. Nesse Natal, mesmo que tivesse havido uma grande festa na praça central de Belém, ela não teria ido. “Depois do que aconteceu em Paris, tenho medo de aglomerações”.

Marian casou-se recentemente e tem uma filha de menos de um ano. Na sala da família, há uma grande árvore de Natal. Ela citou várias vezes o caráter pacífico dos cristãos palestinos, e a forma como essa comunidade vive harmoniosamente com os muçulmanos. Perguntou-se a ela, então, se conhecida algum um casal misto. Ela respondeu hesitante que por vezes há, sim, namoros entre meninas e meninos islâmicos e cristãos. Quando a mesma pergunta foi feita em árabe ao avô de seu marido, que também participava da entrevista, a reação foi diferente: “Inaceitável. De forma alguma. Se uma menina cristã se relaciona com um muçulmano, ela é expulsa de sua família”.

Saí de lá mais confusa do que entrei. Talvez a esquizofrênica seja eu.

Comentários    ( 6 )

6 comentários para “Uma Belém pouco cristã, entre intifadas e surtos esquizofrênicos”

  • Raul Gottlieb

    04/01/2016 at 16:28

    Não fique confusa, Miriam.

    O Sr. Makran está apenas falando aquilo que ele tem que falar para continuar vivo. O fato é que os cristãos estão desaparecendo de todos os recantos do mundo árabe (Líbano, Egito, Palestina, Iraque, Síria, etc.). O único lugar do Oriente Médio em que os cristãos se mantém com a mesma proporção demográfica dos últimos muitos anos é no Estado de Israel. E o Sr. Makran sabe disso muito bem.

    E a graciosa Marian ainda não entendeu que ela não deve mostrar a absurda intolerância do mundo árabe frente aos estrangeiros. Mas ela vai entender isto já, já, pode ter certeza. Infelizmente.

    Ah sim, esqueci de dizer que na Palestina após a guerra dos seis dias e antes do governo da ANP os cristãos igualmente mantinham a sua proporção demográfica.

  • Ana Maria Piazera-Davison

    04/01/2016 at 21:52

    Excelente artigo, Miriam! Só queria um esclarecimento. Quando um palestino cristão se refere à ocupaçao de Israel, ele quer dizer a Cisjordânia ou o Estado de Israel?

    Obrigada!

    • Miriam Sanger

      05/01/2016 at 10:12

      Ana querida, um cristão palestino tem a mesma visão política de um muçulmano cristão. Ou assim me parece. O chato é que, tudo indica, ele está envolvido em uma disputa cujo resultado não afetará sua vida de forma positiva — não me parece que a comunidade cristã vá sobreviver por muito tempo nos atuais territórios ou no futuro Estado palestino.
      Será que entendi sua pergunta?
      Beijos
      Miriam

  • Marcelo Starec

    05/01/2016 at 21:36

    Oi Miriam,

    Muito bom o seu texto!!!…É fato, comprovado por todos os tipos de dados, que a população cristã está simplesmente desaparecendo em todo o vasto Oriente Médio islâmico…Israel, um pequeno oásis, é a única exceção, ou seja, o único local onde os cristãos estão aumentando em número – e não diminuindo!…Alguns vão dizer – há, mas no Líbano um cristão também pode viver…Sim, AINDA pode, eu diria!…mas com um Hezbollah intolerante, radical, ligado ao Irã dos Ayatollas lá dentro, por quanto tempo???….Nos territórios administrados pelo Abbas ou pelo Hamas, a proporção de cristãos só diminui….e no Líbano também….Então, a única exceção (onde os números provam que os cristãos se sentem de fato seguros…é Israel mesmo….Um país minúsculo e tolerante nesse imenso Oriente Médio, onde o islã dá as cartas!…)….

    Belem, cada vez menos cristã, é um mero retrato do que ocorre, hoje, no Oriente Médio….

    Abraço,

    Marcelo.

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