Uma breve história da agricultura de Israel

13/07/2015 | Economia, Sociedade.

Início – A agricultura como ideal

As primeiras ondas de imigração judaica trouxeram a Israel, no fim do século XIX, milhares de jovens europeus que viam no sionismo a solução para a questão judaica.

Muitos destes imigrantes levaram a sério as palavras de pensadores sionistas como Aharon David Gordon, Dov Ber Borochov, entre outros, que pregavam a volta ao trabalho agrícola como forma de construção do novo Estado judaico.

Se a teoria apontava para o caminho fundamentado na agricultura, a prática nem sempre seguia este rumo.

Com pouca ou nenhuma experiência como agricultores, os primeiros imigrantes tiveram muitas dificuldades para adaptar-se à nova vida do campo. Acredita-se que, não fosse pelo generoso aporte do Barão de Rothschild, os imigrantes não teriam suportado as difíceis condições da vida no campo.

No ínicio do século XX, a figura começou a mudar de cara com a vinda de jovens que passaram por períodos de preparação e aprendizado de técnicas agrícolas antes de imigrar. Estes jovens fizeram uma verdadeira revolução no Ishuv e foram os responsáveis pela fundação das primeiras comunidades agrícolas (kibutzim).

Nesta época, trabalhar como agricultor estava além da necessidade básica de prover alimentos para a população.O trabalho agrícola estava carregado de simbolismo. Ele representava o renascimento do novo judeu na terra dos seus antepassados.A agricultura era um valor, um programa coletivo e um pilar para as bases da formação do novo Estado.

Meio – A agricultura como necessidade estratégica

A independência de Israel trouxe consigo a necessidade do aumento da produção. Em apenas dois anos, a população judaica mais que dobrou. Era preciso alimentar todas essas pessoas, sem poder depender de importações de países vizinhos – todos eles em guerra com o recém-criado Estado. A agricultura passou a ser, além de um ideal, uma necessidade estratégica do país.

Nos primeiros anos, entre 30% e 40% da produção agrícola estavam nas mãos de comunidades agrícolas, como kibbutzim e moshavim. Os primeiros avanços tecnológicos, como técnicas de irrigação por gotejamento, surgiram nesta época. O foco da busca de novas tecnologias estava em superar a escassez de recursos fundamentais, como água e terra.

drip irrigation

 

Nos anos 80, a maioria das comunidades agrícolas do país enfrentou uma forte crise, causada pela redução do preço dos produtos agrícolas, pelo corte dos subsídios do governo ao setor, entre outros motivos.

A crise foi superada com base no ingrediente mais marcante da agricultura israelense: o avanço tecnológico. Novas soluções aumentaram a produtividade e baratearam o preço dos produtos israelenses. Com excesso de produção, a exportação agrícola, impensável nos primeiros anos do Estado,, transformou-se  na solução para a superação das limitações do pequeno mercado consumidor.

Israel desenvolveu os processos de dessanilização e de reutilização de águas de esgoto para fins agrícolas, fato este que reduziu muito o preço da água. Inúmeras estufas e redes que controlam a temperatura e as condições de crescimento das plantas  foram implantadas, e isto permitiu que a produção agrícola se realizasse em praticamente todas as regiões do país.

Fim – A agricultura como fonte de renda: exportação de tecnologias

Israel conseguiu tornar-se auto-suficiente na maioria dos cultivos. E importações, em geral, são feitas apenas como forma complementar ou como opção para produtos específicos.

O país exporta frutas e verduras, com destaque para a famosa laranja Jaffa, caquis “Sharon”, melões, uvas, melancia sem caroço, tomates cereja e muitos outros. Mas o verdadeiro négocio agrícola, hoje em dia, é a exportação de tecnologias.

Israel é casa de gigantes do cenário mundial agrícola como Evogene, Netafim e ICL. Os poucos mais de 435 mil hectares (para se ter uma comparação, o Brasil tem 9,5 milhões de hectares apenas de cana de açucar) não limitam a expansão agrícola israelense que deixa sua marca na maioria dos países do mundo.

Fica claro neste ponto que a breve história da agricultura israelense pouco se diferencia da história de criação do país em si: um ideal utópico, que tornou-se uma necessidade, e que hoje ocupa um importante espaço no cenário mundial (a despeito de seu pequeno tamanho); crescendo num ambiente repleto de obstáculos e dificuldades.

Para mais textos sobre o tema:

Ptitim

O país da água

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Uma breve história da agricultura de Israel”

  • Marcelo Starec

    14/07/2015 at 02:53

    Oi Amir,

    Muito bom artigo e de leitura muito agradável também!…Eu tenho plena convicção de que, nem os mais otimistas poderiam pensar que Israel, em apenas 67 anos conseguisse ter uma grande produção agrícola com um território tão reduzido e um bocado inóspito (desertos etc…), tudo isso em função de um trabalho realizado por pessoas que sequer tinham familiaridade com o campo, já que os judeus em regra não podiam ter terras, ser camponeses e assim por diante…E venceram!…e mais adiante este mesmo País conseguiu via tecnologia ser um País muito relevante a nível mundial, estando hoje em condição de auxiliar os demais países para produzir alimentos, com excelência, alta produtividade e baixo custo,

    Abraços,
    Marcelo.

  • Rafael Stern

    15/07/2015 at 06:41

    Belíssimo texto, caro Amir!
    A agricultura de fato cumpriu um papel fundamental na construção da identidade sionista e sua conexão cultural com a terra de Israel a partir de uma conexão física. Muito coerente e condizente com a minha visão de mundo, através das lentes da geografia. Mas certos questionamentos merecem ser levantados. Para permitir o desenvolvimento da agricultura, Israel fechou a saída sul do lago kineret e desviou toda a água do rio Jordão inferior (o que vai so kineret ao mar morto) para irrigar os campos de todo o país. Por isso, há mais de 50 anos o mar morto vem secando, perdendo mais de 1 metro de profundidade por ano. Todo o meu respeito pela ideia inicial e o papel que isso cumpriu na formação da identidade israelense e na estabilização das fronteiras do país. Mas será que um país com 60% de deserto, e os outros 40% de clima bem seco deve ser um país agro-exportador? Israel deve realmente vender flores e pimenta pra Europa? Porque, junto com esses produtos agrícolas, Israel está exportando o mar morto e o rio jordão.
    Como você bem abordou, o foco agora das exportações é a tecnologia. Ótimo, acho que o foco deve se desviar para ai mesmo! Resta saber se com as novas fontes de água (dessalinização e esgoto tratado), a água do Jordão e do mar morto vai voltar a fluir no seu fluxo original, reestabelecendo, além do equilíbrio ecológico, o simbolismo desses importantes marcos naturais da paisagem de Israel. Ou se vão preferir o plano megelomaníaco, bilionário, e altamente impactante de fazer um canal do mar vermelho para tentar salvar o mar morto…
    Não deixa de ser irônico que o ímpeto de se identificar com a terra esteja causando a extinção de simbolos tão fortes.

    Abração de quem te admira,

    Rafa

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