Uma gigante chamada Intel

09/06/2014 | Ciência e Tecnologia

por Marcelo Korn


INT
tegrated ELectronics

Após uma grande disputa entre Israel, Irlanda e EUA sobre qual país teria o direito de construir a nova fábrica da Intel, a decisão beneficiou o nosso pequeno país. Israel receberá um investimento compreendido entre três a seis bilhões de doláres.

Para compreender todo o processo desta “vitória”, é necessário conhecer o que realmente a Intel fabrica, o que é um processador de 10 nanômetros (propósito da próxima fabrica), como a Intel chegou em Israel, e finalmente, como a unidade da empresa em Haifa se tornou um ícone mundial (salvou a Intel, mudando sua direção e seu foco).

Este artigo é o primeiro de uma série de três textos:

  • Uma Gigante chamada Intel
  • Como a Intel-Israel (mas precisamente Haifa) mudou o curso da empresa.
  • A grande vitória da Intel-Israel na licitação da nova fábrica de processadores

Uma Gigante chamada Intel

A Intel foi fundada no ano de 1968 em Montain View – na Califórnia, Estados Unidos, por Gordon Moore (físico e químico) e Robert Noyce (físico e co-inventor). Seu primeiro produto foi o circuito integrado de memória RAM[ KM1] ou, em bom português, “Memoria de computador”

Permitam-me colocar foco em Gordon Moore, responsável por uma “tal” Lei de Moore (Moore’s Law), que diz o seguinte:

O número de transistores dos chips terá um aumento de 100%, pelo mesmo custo, a cada período de 18 meses a 24 meses” – Gordon Moore.

Essa profecia tornou-se realidade e hoje há mais de meio bilhão de transistores em cada chip.
Os transistores são tão pequenos, mas tão pequenos, que se fossemos comparar com algo para se ter uma ideia de ordem de grandeza, diria o seguinte:

O tamanho do transistor equivale à metade do tamanho do vírus da gripe. Se quisermos dar mais uma ilustrada, é possível dizer que 200 milhões de transistores são do tamanho de uma cabeça de um alfinete. Pequeno não?

Um transistor nada mais é do que um componente eletrônico capaz de injetar uma pequena corrente na base e se obtém uma alta tensão de saída. Mais ou menos como uma torneira de casa, onde de um lado existe uma corrente de agua e no meio a torneira que regula a quantidade de agua (corrente) que sai do outro lado.

Israel - ConexaoIsrael - Intel

Atualmente a Intel emprega algo na casa dos 100 mil funcionários no âmbito mundial e em Israel algo em torno de 9.800, tendo 5 unidades: Haifa, Jerusalém, Petach Tikva, Yakum e Kiryat Gat.

Nas unidades localizadas em Israel encontra-se de tudo, centro de desenvolvimento de microprocessadores, fábrica de produção de processadores, fábrica de cortes de circuitos, centro de design, centro em excelência de validação e etc.

Mas de onde vem a matéria prima para a produção de chips?

Tudo começa com a areia do mar que, com exceção do oxigênio, é o material mais comum na natureza. Uma vez coletada (mais materiais adicionais), forma-se um cilindro de silício, dele então corta-se lâminas (Wafer) que uma vez divididas em quadrados pequenos e após passar um processo complexo serão chamados de chips.

Israel - Intel - Chips

Alguns números são impressionantes, por exemplo:

Na sala de fabricação, também chamada Clean Room (Quarto Limpo), onde são produzidos os chips, o nível de limpeza é 10 mil vezes, repito 10.000 vezes mais limpo do que uma sala de operações de um hospital. O ar é trocado a cada 10 a 15 minutos por um ar mais limpo. É possivel se produzir hoje algo em torno de 70 mil lâminas (Wafer) ao mesmo tempo. Cada Wafer passa por cerca de 500 diferentes ações e pode-se demorar cerca de 60 dias para terminar todo o processo de produção.

Intel e Israel:

Israel foi a primeira unidade criada fora dos EUA.

Dov Frohman-Bentchkowsky, nascido em Amsterdã em 1939, filho de poloneses que emigraram para a Holanda no comeco dos anos 30 por temer o antissemitismo crescente, emigrou para Israel em 1949 depois de morar num orfanato para crianças que perderam os pais em virtude do Holocausto. Cursou Engenharia Elétrica no Instituto de Tecnologia Technion de 1959 a 1963 e logo após foi para os EUA fazer seu mestrado e doutorado na Universidade de Berkeley. Em 1969, depois de terminar seu doutorado, foi trabalhar na Intel, um ano após sua fundação.

Em menos de um ano, ele desenvolveu a memoria EPROM, a primeira memoria apagável e programável. Antes disso, existiam e existem até hoje dois tipos de memória: RAM, facilmente programável mas uma vez que não exista tensão elétrica, ela perde todo seu conteúdo, ou seja, não guarda dados.

ROM[KM2] que é justamente o contrário, ainda que não exista tensão elétrica, ela salva as informações contidas nela, porém não se pode programa-las pelo simples fato que são “read only” (somente leitura).
A EPROM combina o que há de melhor nas outras duas RAM e ROM, ou seja, os dados não são perdidos se o usuário desligar seu computador e é facilmente programável.

Só para se ter uma ideia, as músicas ou dados salvos no seu tocador de mp3 ou no seu telefone só não se perdem quando a bateria acaba, graças a EPROM e mais do que isso, algum engenheiro programou essa mesma memória com os softwares que gerenciam o seu tocador, telefone, diretórios de músicas, apps e etc.
Esta foi a grande sacada que gerou os maiores lucros da Intel no final da década de 1970 e continuou na década de 1980.

Depois de inventar a EPROM, Dov resolveu dar aula de engenharia elétrica em Gana, mas voltou a Intel em 1973, logo após sua volta, fundou o Centro de desenvolvimento de Haifa em 1974.
Portanto em 1974 comeca a historia da Intel-Israel, mais especificadamente na cidade de Haifa, a mesma unidade que mais tarde mudaria para sempre o curso de toda a empresa. Mas isso vai ficar para a segunda parte desta série ….

Para se ter uma ideia do que representa a Intel para o Estado de Israel:

  • Empregos diretos – 9800.
  • Empregos indiretos – 23.000.
  • Emprega 10% de toda a industria de eletrônicos e softwares do país.
  • Israel possui o terceiro maior investimento da Intel fora dos Estados Unidos, atrás apenas de Índia e China.
  • Nos últimos 15 anos, investiu em 64 empresas israelenses.
  • A fábrica em Kiryat Gat mede 20 mil metros quadrados, o equivalente a 3 campos de futebol.
  • Em 1974 é fundado em Israel(Haifa) o primeiro centro de pesquisa e desenvolvimento fora dos EUA.
  • Em 1985 é fundado em Israel(Jerusalém) o primeiro centro de fabricação fora dos EUA.
  • Após a construção da fábrica de Kiriat Gat, o PIB de Israel cresceu 2%.

[KM1]Random Access Memory
Memoria de acesso randomico(dinamico)
[KM2]Read only Memory


Marcelo Marcelo Korn  mora em Israel há 9 anos (desde 2005). Cursou no pais duas faculdades: Engenharia de Sistemas e Ciência da Computação no Hadassah College of Technology em Jerusalém. Trabalha na Intel desde 2008, atualmente ocupa a função de Engenheiro de Software e Firmware no campus Jerusalém(IDCJ) – Israel Design Center Jerusalém. (LinkedIn – Marcelo Korn)

Comentários    ( 7 )

7 comentários para “Uma gigante chamada Intel”

  • Marcelo Starec

    09/06/2014 at 19:04

    Oi Marcelo,

    Parabéns pelo artigo! Fiquei impressionado com a importância que Israel tem para a Intel e vice-versa, já que 10% dos funcionários da Intel a nível mundial são israelenses, trabalhando em Israel!…Aguardo então os demais textos.

    Abraço,
    Marcelo.

    • Marcelo Korn

      10/06/2014 at 14:36

      Obrigado Marcelo Starec, ja ja sai o segundo texto…. muitas informacoes no minimo curiosas sobre a relacao Israel – Intel
      Abcos

  • Raul Gottlieb

    11/06/2014 at 08:27

    Beleza de texto, Marcelo! Muito obrigado.

    Fico pensando que esta galera que propõe o boicote aos produtos israelenses deveria começar pelo boicote aos produtos da Intel,o que acarretaria uma imersão completa no século 19, com suas máquinas a vapor, transporte a cavalo e tratamento de câncer com base em chá de alfafa.

    Eles merecem.

    • Marcelo Korn

      12/06/2014 at 13:22

      Ola Raul, quem propõe o boicote sofre daquela esquizofrenia que nós bem conhecemos…. pedem o boicote usando tecnologia israelense ?!?!?!?!? enquanto difundem suas ideias….

      Valeu….

    • Mario S Nusbaum

      13/06/2014 at 15:23

      “o que acarretaria uma imersão completa no século 19, ” Para muitos deles isso não seria problema nenhum Raul, afinal sonham com a volta ao século VII.

  • Rebeca Daylac

    16/06/2014 at 04:01

    Marcelo,

    Parabéns pelo texto!!!
    Estou aguardando os próximos!!!

  • romerito

    05/10/2014 at 16:25

    parabens a intel,mas israel deve procurar tambem outros investimentos em outras areas pra diversificar sua economia que e depedente de exportacoes e um pais interessante e a china cuja duas economia se complementam gerando riquezas para ambos.

Você é humano? *