Uma outra lógica: punir e calar

Essa semana encontrei um amigo que não via há um mês: Ahmad. Ahmad passa dos 40 anos, homem forte. Mora em um campo de refugiados na região de Jerusalém. Sua família foi expulsa de casa, na região de Beit Shemesh, entre Jerusalém e Tel Aviv, em 1948, Independência para uns, e Nakba para outros.

Na juventude, lutava contra a ocupação israelense. Durante a Primeira Intifada, viu seu irmão morrer ao ser atingido por um tiro de um soldado israelense pelas costas, a pouco metros de sua casa. Foi preso e integrou, durante um certo período, movimentos de resistência armada.

Alguns anos depois, Ahmad mudou. Chegou em casa e viu, na televisão, que havia ocorrido um atentado em Israel. Pessoas morreram. Sua mãe chorava

Ver sua mãe chorar era coisa comum, depois da morte do seu irmão, na década de 1980. Meio confuso com aquela cena, Ahmad pergunta a sua mãe o que estava acontecendo. Ela, então, responde dizendo que havia tido um atentado. Então, Ahmad diz a ela que não entendia o seu choro porque afinal de contas que havia morrido era o inimigo. Então sua mãe o responde: “Por trás de cada pessoa morta, tem uma mãe que chora”.

Aquelas foram palavras que deram ao meu amigo uma nova dimensão do que é a vida e do que temos que lutar. Ahmad começou a militar em movimentos de diálogo entre palestinos e israelenses, que defendem o fim da ocupação e a criação de um Estado palestino, ao lado do Estado de Israel.

Como outros milhares de trabalhadores palestinos, Ahmad precisa da autorização israelense para vir trabalhar aqui. Recentemente, por conta de sua militância anti-ocupação, tem sido mais difícil conseguir. Um dos movimentos em que ele é ativista entrou para a “lista negra” (movimento que são tachados como anti-Israerl) do governo israelense, e a vida dos militantes palestinos ficou mais difícil.

Sua autorização demorava mais do que o normal para ser renovada e, por isso, não conseguia entrar em Israel. Começou a pensar no mercado negro das autorizações. Arrumar um empregador fantasma que lhe daria um contrato também fantasma a um custo de dois mil shekels por mês (cerca de 500 dólares).

Mas, recentemente, conseguiu a renovação mensal. Só que, para a sua surpresa, apesar da autorização valer por um mês, ele só pode entrar em Israel 15 vezes. Assim, Ahmad tem de contar com a boa vontade de amigos ou empregadores que estejam dispostos a abrigá-lo por algumas noites em suas casas, para que possa trabalhar o mês inteiro.

A punição coletiva é algo presente e constante na vida da população palestina. As humilhações diárias, principalmente àqueles que trabalham em Israel, são parte de uma cruel realidade.

Agora, como parte da política, o governo de Israel se volta para movimentos que se opõem à sua política e defendem dois Estado para dois povos. Para além disso, movimentos de oposição e de atividades não violentas. A violência vem do Estado, da ocupação.

A inversão da lógica é clara, ou melhor, a lógica do atual governo israelense é outra. Não buscam a paz nem o diálogo. Falar em dois Estados é se opor a atual política israelense e os oposicionistas são vistos como inimigos. É como se os males que são frutos da cruel política de ocupação fossem produzidos por aqueles que lutam para terminar com ela. Querem calar quem se opõe e castigar. Constrõem um futuro sombrio e cada vez mais incerto.

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Uma outra lógica: punir e calar”

  • Marcelo Starec

    01/04/2016 at 23:35

    Oi Marcos,

    Entendo que o seu artigo foca na opinião do seu amigo – que aliás está correto em buscar o diálogo e a paz…mas ele é representativo entre os árabes palestinos?…Eu gostaria muito de ver um posicionamento claro desse palestino contra o fato do Abbas dar, até hoje, a “bolsa terrorista” para aqueles que cometem atentados contra civis israelenses…Um assunto simples que parece que ninguém se interessa em abordar…Bem, sobre a questão dos dois estados – muito salutar a discussão e é uma solução que me parece a melhor possível – o problema é – como chegar lá?…Algum dia já houve uma oferta final árabe palestina abrindo mão de “enfiar” milhões de descendentes (ou supostos) de refugiados dentro de Israel?…Falar em 1948 – Uma guerra iniciada pelos países árabes vizinhos para “jogar os judeus ao mar” (ou para ser bem claro – realizar um genocídio de judeus!)…E aldeias que atacaram judeus, dentro de Israel, no meio de uma guerra e se continua até hoje a querer de uma forma ou de outra o fim de Israel – seja pela via do terror ou pela via de um acordo onde Israel passaria a ser metade muçulmana, ao lado de um Estado Palestino – totalmente livre de judeus….Infelizmente Marcos, essa questão é muito complicada e só será possível algum acordo definitivo quando se parar com essa novela de descendentes de refugiados querendo ser israelenses e do lado de cá uma visão de que teremos de ceder algo para a construção desse Estado…Uma questão muito complexa e sem qualquer perspectiva de uma solução fácil…mas que terá de ser resolvida para o bem de todos, inclusive o nosso!….

    Abraço,

    Marcelo.

  • Pájaro

    04/04/2016 at 09:46

    Obrigado Marcos, abraço.

  • Mario S Nusbaum

    06/04/2016 at 15:58

    Também acho que o atual governo não quer dois estados Marcos, mas isso não pode ser provado, por um motivo muito simples: o outro lado também não quer e age contra isso de forma muito mais radical. Cansei de dizer que se eu fosse o Netanyahu marcaria dia, hora e local para negociar e mandaria uma delegação israelense para lá. A chance de encontrar autoridades palestinas é a mesma de encontrar o Papai Noel.
    Sobre o seu amigo, adoraria saber a opinião dele sobre porque NENHUM das dezenas de milhões de refugiados da II Guerra e da partilha da ìndia vive hoje em campos.
    Sou 100% a favor de dois estados, mas não vejo como Israel pode impor essa solução. Lembro que quando se retirou de Gaza foi criticado por faze-lo “unilateralmente”!

    “É como se os males que são frutos da cruel política de ocupação fossem produzidos por aqueles que lutam para terminar com ela.”
    Não são, foram produzidos por MUITA OUTRAS ações e omissões, todas palestinas.

Você é humano? *