Uma surpresa em Yom Kippur

Esse foi o terceiro Yom Kippur que passei em Israel. O primeiro em Jerusalém. Tive a oportunidade de estar em um kibbutz, no primeiro ano, depois passei em Tel Aviv, em outra oportunidade. Desta vez eu queria ver como era estar em Jerusalém.

Pela manhã pude fazer o que costuma-se fazer em outras regiões do país. Um passeio de bicileta em ruas vazias de carro, pelo menos na parte ocidental da cidade. Mas o que me chamou mais a atenção foi ir ao Muro das Lamentações no final do dia. Queria ver o final do jejum no local mais sagrado para o judeus.

Eu fui buscando uma imagem da minha infância. Há cerca de vinte anos atrás, quando ainda jejuava e ia à sinagoga, um amigo meu do colégio disse que tinha visto um vídeo de uma parte final da oração chamada “Avinu Malkeinu” no Muro das Lamentações. Nas sinagogas em que ia no Brasil o “Avinu Malkeinu” era sempre dito em voz alta, todos juntos. Podia sentir que era o momento de tirar as últimas energias do corpo depois de um dia inteiro sem comer e sem beber.

Cheguei ao Muro das Lamentações para ver o vídeo que ficou na minha cabeça por quase duas décadas.

Já pude presenciar no local momentos tensos, com violência física, quando grupos religiosos tentavam impor a outros grupos sua forma de se comportar ou tratar a sua visita ao local e isso aumentava a minha expectativa.

O clima era extremamente agradável depois de um dia de extremo calor. No final da tarde as pessoas iam chegando em maior número e muitas crianças corriam pelo enorme pátio na entrada.

Nesse mesmo pátio já pude ver um número grande de pessoas que não era judias. Não sei se todos eram turistas, mas vi padres e freiras rezando discretamente sem serem incomodados. Havia também grupos de turistas que tiravam “selfies”, gerando alguma reação negativa de quem rezava.

Outros membros desse grupo se afastaram e ficaram debruçados na mureta que há antes de se chegar ao Muro observando os devotos judeus que, de sua forma, imploravam pelo perdão divino e para um ano doce. Por mais de 30 minutos ficaram ali observando.

Quando me aproximei do muro a surpresa aumentou. Pude ver diversos grupos. Não havia uma pessoa que organizava e direcionava a oração. Não havia uma hegemonia sefaradi ou ashkenazi. Cada “minian” (grupo de dez) se organizava de acordo com as suas práticas e costumes. Ashkenazim, sefaradim, iemenitas, etíopes, ortodoxos, liberais, israelenses, brasileiros, americanos, ingleses, indianos, mexicanos, franceses. Todos estavam ali e o Muro das Lamentações é muito mais democrático quando as pessoas estão preocupadas com o perdão.

Um grupo de turistas latinos entra no espaço com fones de ouvido para escutarem o que o guia tem a dizer e ninguém nem os percebe. Também passa despercebido o menino americano que tira “selfies” de costas para o muro para mostrar nas redes sociais aonde ele está fazendo o seu jejum.

O final da tarde se aproxima, a noite vai caindo e eu espero o “Avinu Malkeinu”. Mas não veio. Fiquei aguardando e logo depois escutava o som do “shofar” marcando o fechamento da oração. As pessoas iam se dirigindo com pressa para as mesas de comida e bebida que já se encontravam cheias de crianças e o espaço foi esvaziando.

Achei muito interessante a forma como as cerimônias eram dirigidas nesse dia, aceitando a todos (não posso dizer o mesmo para todas). Sem dúvida foi uma experiência bem interessante, mas o passeio de bicicleta é a melhor opção!

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Uma surpresa em Yom Kippur”

  • Eloi Laufer

    15/10/2014 at 20:09

    Achei muito interessante a descrição de como todos se comportam diante do muro, assim como ele é um simbolo religioso, ao mesmo tempo para alguns é um local turístico para se fotografar e enviar aos outros amigos para que possam te localizar no espaço e no tempo…

  • Marcelo Starec

    16/10/2014 at 06:11

    Oi Marcos,
    Obrigado pelo artigo e pelas interessantes observações sobre o Muro em Yom Kippur.
    Abraços,