Vem chegando o verão

Nada como as estações climáticas bem-definidas e demarcadas dos lados de cá. Nos últimos dias, já deu para entender: está na hora de, de novo, estocar na parte de cima do armário os sapatos e os casacos, a galochona e o gorrinho. Momento de aproveitar os dias longuíssimos – luz até as oito da noite, delícia! – e de dormir de janela aberta. De ir à praia a qualquer hora do dia e de limpar o pó do filtro do ar-condicionado, cada vez mais ligado. De dar adeus às florzinhas que brotaram em casa com a primavera e regar as pobres das plantas quase que diariamente. É uma alegria – e um prelúdio. Não tem jeito: o verão vai chegar e tudo vai mudar. De novo.

Clima é um assunto que não está na pauta da Agência Judaica no momento em que prepara a aliá dos brazucas. Chegam aqui achando que vão enfrentá-lo com o know-how brasileiro (especialmente os cariocas). Ledo engano: sofre todo mundo, e leva-se um bom tempo, um ou dois verões, para se entender como lidar com ele. Ou, melhor, como não lidar: o negócio é fugir. Mas isso a gente só aprende depois de achar que, “imagina, dá para gerenciar”.

As estações determinam um monte de coisas por aqui. É o momento em que há menos festas religiosas. Há pouco deixamos para trás uma sequência punk e alegre delas. Agora, só em setembro. Até o judaísmo entra em recesso sob esse calor de rachar. Acho isso uma medida de inteligência e de espírito de sobrevivência.

Nessa semana, as escolas encerram suas atividades, para retomá-las somente no começo de setembro. Momento dos adolescentes subirem pelas paredes de tédio durante as tardes infernais (ou, pior, se enfiarem em shopping centers) e de lotarem as ruas depois das seis da tarde, quando o calor se torna mais suportável. Hora das mães de pequenos enlouquecerem em buscas de atividades sadias em lugares protegidos. Piscina é a primeira opção, mas só para quem tem grana: outro dia teve até reportagem na TV tratando sobre o absurdo do valor das entradas em piscinas, tanto públicas quanto privadas. Programa de rico. Praia, só dá depois das cinco. Antes disso, é mico. Depois também é, em função da superlotação.

Para muitos, é hora de mudança de apartamento. Aqui, os contratos de aluguel são anuais e muitos proprietários forçam para que eles se encerrem nesses meses de verão, quando é fácil encontrar novos inquilinos quando os antigos resolvem sair. Hora dos russos trabalharem feito loucos nas empresas de mudanças (são a maioria nesse setor), os preços de aluguéis irem às alturas e o Ikea ficar lotadão de clientes.

Também é hora de conferir a programação que as prefeituras organizam para essa época. Nesse aspecto, Israel é uma bênção. Aqui em Raanana já está tudo definido há tempos, com shows e atividades por todos os lados (ou em lugar fechado ou à noite). Essa é uma época especialmente legal por aqui pois, em função do enorme, imenso e escandaloso número de residentes raananenses de origem europeia e americana, a cidade se esvazia – todo mundo foge do verão. O aeroporto fica um inferno e, se você pretende tomar um avião da El Al, já sabe que terá que chegar no aeroporto umas cinco horas antes: o terrível check-in, que normalmente toma três horas, vira uma façanha digna da travessia do Mar Vermelho.

Para quem fica e tem o privilégio de poder fazer um pouco de turismo dormindo fora e enfrentando as absurdas tarifas dos hoteis, é necessário estar preparado para uma maratona. Eilat, a vedete israelense, bate os 45 graus – você não sua, porque não há umidade, mas fica com a sensação permanente de estar dentro de um forno. Parece que há quem goste. Jerusalém é quase impraticável: há de ser um teste divino para checar a devoção de seus visitantes o fato de ser a mais gélida cidade invernal e a mais tórrida cidade veranil de nosso pequeno país. Mas não há, como sempre, como resistir a ela, com tantas possibilidades de diversão e cultura que se realizam por ali. O norte, ainda fresco à noite, fica ainda mais inviável financeiramente, e o sul se esvazia. Vira lugar só para valentes. Há uns tantos, mas não estou entre eles.

Os bichinhos locais também mudam seu comportamento. Depois de meses de revoada, raramente se escuta um pio durante o dia. A gataiada, essa população à parte que visivelmente se prepara para tomar o país em algum dia próximo, também some das ruas ensoladas, para reaparecer em um número ainda maior durante as noites. Em agosto do ano passado, encontrei em plena avenida Ahuza, nossa avenida Paulista local, um filhote de porco-espinho (kipód, em hebraico, olha que nome fofo!). No safári, para onde o levei dias depois, nos informaram que essa espécie, entre muitas outras, procriam-se somente nessa época. Ou seja, até filhote de “kipód” é coisa de verão por aqui.

Outro evento típico dessa época do ano são os incêndios, especialmente os florestais. Nos últimos dois meses, áreas próximas a Jerusalém e Beit Shemesh, além do norte do país, já começaram a pagar o preço da secura e da temperatura escaldante. Esse fogo todo, dificílimo de ser contido nesse clima extremo, parece incendiar também os nervos dos semitas do lado daqui. Todo mundo sabe que o verão é a época “preferida” das guerras locais. No ano passado, felizmente, passamos incólumes. Resta para nós, pobres civis desidratados e doidos por uma sombra, torcer para que esse verão que está chegando nos abençoar apenas com a multiplicação de felinos e as contas estratosféricas de luz.

Foto: http://igoogledisrael.com/wp-content/uploads/2016/05/tlvbeach2-1024×688.jpg

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