Vencendo o boicote

01/11/2014 | Conflito; Economia; Política

Durante as décadas que se seguiram à independência do país, ainda em meio às rivalidade da Guerra Fria, o Estado de Israel encontrou-se isolado regionalmente devido ao boicote politico e econômico imposto pela Liga Árabe. Este obstáculo forçou o governo israelense a lançar-se em busca de parceria com outras nações – próximas e distantes – cujas necessidades políticas e econômicas fossem adequadas.

O governo negociava tanto com a superpotências (os Estados Unidos e a União Soviética) e outras potências européias que poderiam suprir suas principais necessidades estratégicas, quanto com países não-árabes no sistema regional (Turquia, Irã, Etiópia – ainda que nenhum tivesse fronteiras com Israel), com os quais estabelecia relações “entre iguais”. Por fim, o Estado de Israel aproveitava-se de sua condição de economia recentemente-industrializada para oferecer auxílio a nações africanas que apenas recentemente haviam se tornado independentes.

Desde sua independência, o Estado de Israel sofria um boicote imposto por seus vizinhos árabes. Mais do que a inexistência de reconhecimento político em qualquer nível, a Liga Árabe levantou um boicote econômico sobre quaisquer produtos Made in Israel e, em níveis secundário e terciário, bens produzidos por companhia ou países que mantivessem relações com Israel. Isto significava que o recém-fundado Estado não poderia aproveitar-se de laços comerciais dentro de sua vizinhança.

A princípio, o país manteve-se neutro na Guerra Fria, o que permitiu que ambas as superpotências lhe oferecessem auxílio. Da União Soviética, Israel conseguiu um acordo para venda de armas através da Checoslováquia e a autorização para a imigração (aliá) dos judeus da Europa Oriental. Dos Estados Unidos, o país obteve empréstimos e a isenção de taxação sobre doações de cidadãos americanos, além de um acordo de venda de armas que, apesar de reduzido à época, foi expandindo-se ao longo das décadas.

Da França, seu maior aliado até a década de 1960, e da República Federal Alemã, Israel conseguiu obter armamentos pesados. O acordo de compensação pelos crimes de guerra do regime nazista também permitiu a aquisição da tecnologia alemã que a economia israelense necessitava para seu rápido processo de industrialização.

Este processo de industrialização acabou por transformar Israel em um caso de sucesso de desenvolvimento econômico, que colocou o país em uma posição de exportador de bens manufaturados, tecnologia, know-how e até mesmo mão-de-obra qualificada para países não-muçulmanos da África Subsaariana nos anos 1950. Apostava-se que a cooperação econômica geraria laços políticos úteis para debates e votações nas Nações Unidas e uma quantidade enorme de dinheiro (para o tamanho do Estado de Israel) foi investida em uma série de países da África Ocidental.

Quando o foco do programa israelense passou para a área de tecnologia e know-how militar e de segurança, as relações expandiram-se também para a África Oriental até que chegou-se a um ponto em que metade das embaixadas israelenses pelo mundo estavam localizadas no continente africano. Na década de 1970, entretanto, quando as nações árabes e a União Soviética (com a qual Israel já não mais mantinha relações) voltaram-se para a África, Israel não pôde igualar sua capacidade de investimento. Ainda que as relações comerciais tenham sido mantidas, já não havia expectativas de que trouxessem resultados políticos.

Nesta época, o único aliado africano de Israel era o regime de apartheid sul-africano, que gerava grandes lucros através de laços comerciais e de cooperação nas áreas militar e de segurança. Porém, com o boicote internacional que excluía a África do Sul do sistema internacional, esta relação tampouco gerava lucros políticos.

Na arena regional, David Ben-Gurion vislumbrou a Aliança da Periferia, sob a qual os países não-árabes do Grande Oriente Médio (Israel, Irã, Turquia, Etiópia e até mesmo os curdos iraquianos), que efetivamente rodeiam as nações árabes, formariam um bloco. Todas estas nações eram politicamente isoladas pelos árabes, tinham regimes de orientação pró-ocidente e necessidades econômicas que se completavam.

Ao Irã, Israel podia vender tecnologia e know-how na área de segurança, além de servir como uma ponte na compra de armamentos americanos, enquanto comprava petróleo. Além disso, ambos os países eram inimigos do regime iraquiano e cooperavam treinando e armando os rebeldes curdos.

A economia turca, à época majoritariamente agrícola, representava um parceiro comercial perfeito à recém-industrializada economia israelense, já incapaz de suprir internamente toda a sua demanda por alimentos e matérias-primas industriais. A Turquia começou a exportar para Israel, comprando bens industrializados em contrapartida.

Ao longo dos anos, a economia industrializada com foco na alta tecnologia (high-tech) que se desenvolveu em Israel permitiu ao país expandir seus laços comerciais em direção a outras áreas do mundo desenvolvido (Europa Ocidental, por exemplo), mas também para regiões em desenvolvimento (como a América Latina), apresentando-se como um parceiro comercial pleno. Pela década de 1990, com o fim da Guerra Fria e a abertura dos mercados do antigo Bloco Soviético, o petróleo árabe deixou de ser um fator tão decisivo e o Estado de Israel conseguiu estabelecer relações plenas e frutíferas com as potências asiáticas – Índia, China e Japão.

Pode ser concluído que, ainda que isolado por seus vizinhos árabes que representariam seus parceiros comerciais naturais, o Estado de Israel conseguiu usar as vantagens competitivas que sua economia possuía, além de buscar aliados políticos, para construir uma rede de laços internacionais. O país usou-se das alianças econômicas e militares que tinha desde sua fundação com nações desenvolvidas para tornar-se um parceiro atraente para outros países não-árabes que se encontravam em semelhante situação de isolamento na região, assim como para países mais distantes, primeiramente no terceiro mundo, mas nas últimas décadas em todo o mundo.

Foto de destaque: Golda Meir e o presidente da Costa do Marfim, Félix Houphouët-Boigny.
Fonte: http://www.haaretz.com/polopoly_fs/1.315459.1285312132!/image/115799899.jpg_gen/derivatives/landscape_640/115799899.jpg

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Vencendo o boicote”

  • Marcelo Starec

    02/11/2014 at 02:04

    Oi Claudio,
    Muito interessante o artigo!…Entendo que, em termos de política externa, cada País vai na medida do possível costurando as alianças necessárias a sua sobrevivência, algo muito importante no caso específico de Israel e ao seu desenvolvimento. Tenho certeza de que a história das alianças de Israel não vai parar por aqui. É possível que daqui a cinco, dez ou trinta anos outros aliados surgirão e outros deixarão de ser, ou passarão a ser menos importantes. A grande diferença que talvez Israel tenha em relação a muitos outros Países, a grande maioria deles, é que Israel, ao definir a sua política externa, escolhe algo vital a sua própria sobrevivência. Um alinhamento mal feito, que para a maior parte das nações representa apenas menos crescimento e desenvolvimento, para Israel pode significar até mesmo um risco real a sua existência, o que no meu entender faz as decisões, no caso específico de Israel, serem bem mais complexas.
    Abraço,
    Marcelo.

  • Mario

    02/11/2014 at 02:35

    Excelente texto Claudio, mas o problema hoje é outro. Peguemos o exemplo da Suécia e da Inglaterra.
    Posicionar-se contra Israel implica alguma perda comercial, não significativa para o PIB deles. Posicionar-se contra os palestinos significa correr sério risco de ter seus metrôs explodidos e otras cositas mas. Por mais que me revolte isso, não consigo condena-los por terem feito o que fizeram. Só lamento não terem entendido o significado do cria cuervos.

    • Claudio Daylac

      02/11/2014 at 20:38

      Olá, Mario.

      Que bom que você gostou do artigo!

      Tenha em mente que ele não visa traçar nenhum paralelo com a conjuntura atual, apenas relata uma época da diplomacia do país, assim como muitos dos artigos que venho publicando nos últimos meses e são extraídos de um curso sobre a história da diplomacia nacional que cursei na Universidade Hebraica.

      Sobre o caso específico da Suécia e do Reino Unido, acho que você faz uma leitura equivocada: posicionar-se a favor do Estado Palestino não é estar contra Israel. Muito pelo contrário! O Estado Palestino é uma necessidade vital para o projeto sionista! Hoje mesmo foi publicado um manifesto de mais de 100 militares de altíssima patente (a maioria, generais da reserva) exigindo que o governo se mexa em prol de negociações, que consideram uma questão de segurança nacional.

      Um abraço,
      Claudio

    • Mario

      03/11/2014 at 22:12

      Sou 100% a favor de um Estado Palestino Claudio
      um abraço

    • Raul Gottlieb

      10/11/2014 at 14:16

      Sim, Mario. A esmagadora maioria dos judeus é 100% a pavor de um estado Palestino. O difícil está sendo fazer os Palestinos querer um Estado.

      Quando você fala (com razão) que: “Posicionar-se contra Israel implica alguma perda comercial, não significativa para o PIB deles. Posicionar-se contra os palestinos significa correr sério risco de ter seus metrôs explodidos e otras cositas mas.” me lembro do comentário de Churchill sobre o acordo de Chamberlain e Dalladier com Hitler:

      “Entre a desonra e a guerra escolheram a desonra e terão a guerra.”

      É simplesmente impossível adequar no mesmo sistema organizações democráticas e anti modernas. Dá para contemporizar por um tempo, mas não para sempre. E quem fala que dá para negociar com elas está apenas adiando a guerra – e tornando-a mais violenta.