Venezuela Kalisher – Uma questão de educação

Em diversos momentos do nosso dia-a-dia, nos encontramos falando e discutindo sobre um assunto de imensa importância: a educação. Nossos pais se preocuparam com a nossa educação, em nos passar os melhores valores e em nos dar o melhor ensino possível. Quando crianças, nos colocaram na creche, depois escolheram um bom jardim de infância e por fim optaram por esta ou aquela escola, para que os professores pudessem ajudá-los nas difíceis tarefas de educar e ensinar.

Em poucos momentos do nosso dia-a-dia nos encontramos falando e discutindo sobre um assunto de imensa importância: a educação especial. A educação daqueles que possuem necessidades especiais, diferentes daquelas que nós tivemos na infância e que almejamos dar a nossos filhos.

Dentro das disciplinas da faculdade de educação física que curso, na faculdade Seminar HaKibutzim, em Tel Aviv, no terceiro ano tive a sorte de escolher fazer uma especialização  em Educação Especial. Sorte, porque até então não sabia o que viria pela frente e poderia ter optado por outra área, que sem dúvida seria também  extremamente enriquecedora.

A educação especial, ou como chamamos a especialização “necessidades especiais”, engloba um grande universo de “deficiências”. Desde os mais leves problemas de atenção e concentração, passando pelos diferentes tipos de autismo até chegar na paralisia cerebral.

Iniciei o meu estágio na área,  dando aulas para crianças autistas, numa escola “normal”, onde os alunos com deficiência eram integrados normalmente com os outros. Mais tarde minha professora me “levou” para outra escola onde ela já trabalhava há muitos anos como coordenadora.

 Trata-se da Escola Venezuela Kalisher, localizada em Tel Aviv e conhecida apenas como Venezuela.

Lugar mágico.

Sem dúvida o “Beit Sefer” Venezuela é especial. Ele recebe crianças e jovens, dos 6 aos 21 anos, portadores de paralisia cerebral. A grande maioria dos alunos se encontra em cadeiras de rodas, são totalmente dependentes, tem movimentos limitados, e não se comunicam através da fala. 

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A Escola Venezuela é uma escola da rede pública de ensino, mas a primeira impressão que se tem ao entrar pela porta principal, é de que se está entrando em uma refinada escola particular.  A estrutura do local é impecável. A limpeza, a organização, os equipamentos, as salas de aula, os pátios.

As crianças e jovens que frequentam o local são de diferentes etnias, religiões, cor de pele. Em um país tantas vezes acusado de praticar o racismo e o apartheid como política de Estado, é lindo a sensação de se trabalhar em uma escola financiada pelo poder público e que atende com eficiência individuos árabes, judeus, brancos e negros. As diferenças são reduzidas a zero quando cuidamos de crianças mais do que especiais.

Em média, cada três crianças recebe os cuidados de um professor e de uma auxiliar. E a instituição conta também com o trabalho de médicos e fisioterapeutas em tempo integral. Impressiona? Sim. Deveria impressionar? Claro que não.  

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A maior e mais significante diferença talvez seja o fato de que grande parte do futuro de todas essas crianças já esteja decretado. Elas não serão médicas, nem advogadas. Não competirão nos Jogos Olímpicos e tampouco serão artistas de cinema.

A maior e mais significante semelhança entre as crianças talvez seja o fato de que o presente de todas elas é o mesmo. São crianças. Querem brincar, querem se divertir. Querem e merecem carinho. As crianças do Venezuela se comunicam através de um olhar, através de um gesto e de um sorriso. São sinceras.

Tenho a sorte e o privilégio de frequentar o Venezuela uma vez por semana e não tenho dúvidas de que ao longo desses seis meses, aprendi muito mais do que ensinei. Aprendi sobre a paralisia cerebral, aprendi sobre as relações humanas, sobre os mais fortes sentimentos.

Acima de tudo, aprendi a dar valor a vida, e entender que a riqueza do “diferente” é saber que ele é “igual” a todos nós.

Comentários    ( 21 )

21 comentários para “Venezuela Kalisher – Uma questão de educação”

  • Paulinho

    10/04/2013 at 05:00

    Beg, obrigado pelo texto e pelo vídeo!
    E parabéns pelo trabalho!
    Abração,
    Paulinho

  • Miriam Gottlieb Treistman

    10/04/2013 at 12:38

    Carissimo Beg,
    Parabens pelo lindo texto! Inspirador…
    beijao

    • Bernardo K. Schanz

      10/04/2013 at 17:47

      Que bom, Mirinha!
      Fico muito feliz com a parte da inspiração!!
      Beijos

  • Tamara

    10/04/2013 at 15:44

    Lindo!
    Parabéns pelo texto e pelo trabalho.

  • Fernanda

    10/04/2013 at 17:21

    Oi Beg,
    Parabéns pelo texto e pela escolha do tema! Ótima oportunidade para discutir educação especial!
    Fiquei com algumas dúvidas com relação a escola, por exemplo, quanto tempo por dia as crianças e jovens passam? A escola faz algum tipo de trabalho pedagógico com os pais? E existe algum ‘critério’ para a seleção dos alunos ou qualquer criança com PC pode entrar?
    Pergunto, pois, dependendo do potencial cognitivo, a criança com PC pode estar apta a frequentar a escola regular em classe compatível com sua faixa etária e com devido acompanhamento.
    Abraços,
    Fefa.

    • Bernardo K. Schanz

      10/04/2013 at 17:35

      Oi Fefa, obrigado pela visita e pelo comentário.
      Tudo que é transmitido na Escola, é passado também aos pais. Um dos principais objetivos da educação especial é conseguir adaptar as atividades para que os pais possam repetir também em casa.
      No Venezuela estão apenas as crianças com os mais altos índices de paralisia. Eles não tem condições de frequentar escola regular.
      As aulas iniciam as 8 da manhã e vão até as 14:30.
      Abraço!

  • ari krasner

    10/04/2013 at 20:39

    Parabéns pelo texto e pelo trabalho que realizas. Um abraço

  • Carolina Ak

    10/04/2013 at 22:01

    muito interessante o texto! ja trabalhei com educação especial e me identifico com muito do que você escreveu. Existem outras unidades do Venezuela em Israel ou escolas com propostas parecidas? Você sabe como é feita a inclusão dos alunos em escolas regulares? Gostei muito do seu texto e o assunto me interessa muito!

    • Bernardo K. Schanz

      12/04/2013 at 12:14

      Obrigado pela visita e pelo comentário.
      Não existem outras unidades do Venezuela, existem sim outras escolas especializadas em CP. Pelo que sei, não são muitas.
      Não sei te dizer o que diz a lei sobre a inclusão, mas pelo que vi e sei, todas as crianças com deficiências “leves”, ou seja, que permitem certo tipo de integração, tem a possibilidade de estudar em escolas regulares com acompanhamento direto de profissionais da área.
      http://cms.education.gov.il/EducationCMS/UNITS/Special/

      Este link é para o site do ministério da educação, departamento de educação especial.

  • Wolo

    10/04/2013 at 23:18

    Valeu Bosh, kavod!

  • Rodrigo

    11/04/2013 at 01:18

    Bacana, Vassoura! Gostei do texto e tiro o chapeu para o trabalho!

  • Rossana Aronson

    29/04/2013 at 15:28

    Muito bom teu texto, muito bom o teu trabalho, o qual nos transporta para uma realidade bonita, e intensa, onde as relações humanas estão sendo trabalhadas, como você diz, com os mais fortes sentimentos. Me interesso muito por esta área!!! Parabéns!!!

  • Vivi

    04/05/2013 at 00:11

    Oi Beg, acabei entrando no site so hoje, nao sabia do que se tratava.
    Parabens pelo trabalho e pela divulgacao da escola! Muito legal!
    Adorei o video ao final
    Bj

    • Bernardo K. Schanz

      04/05/2013 at 15:34

      Valeu, Vivi!
      No vídeo é a minha professora, há alguns anos atrás.
      Um beijo

  • María Lucía Levy Malta

    18/01/2015 at 22:51

    Parabéns Bernardo, excelente matéria. Que felicidade a tua com esse estágio que te proporcionará contribuir muito para a Educacao e claro, com ótimos resultados para as criancas. Que escola maravilhosa!

Você é humano? *