Violência e terror em Israel

09/10/2015 | Conflito; Política

Desde o começo da semana, seguindo uma tendência que já dura mais de um mês, Israel tem passado por uma singular onda de ataques.

É singular em termos de frequência: 5 ataques em menos de 24 horas. É singular em termos de método: ao contrário da última Intifada, tratam-se de indivíduos sem qualquer afiliação com grupos estes ou aqueles, sem treinamento e sem equipamento, realizando ataques por conta própria de forma completamente aleatória e amadora.

Para ler mais sobre o contexto internacional dos ataques, clique aqui.

Ontem (dia 8/10) Netanyahu realizou uma comitiva de imprensa para tentar estabelecer algum tipo de ordem no caos que se instaurou na comunidade civil e, especialmente, na comunidade política.

Ficou claro que a principal motivação para as ações coletivas (protestos) e individuais (os ataques) têm relação direta com El-Aqsa, a esplanada das mesquitas e a suspeita de que Israel estaria tentando mudar o status quo. Netanyahu reiterou que isso se trata de uma mentira e que Israel não tem qualquer plano de mudar o status quo, seja da cidade velha, seja da esplanada. O governo proibiu a entrada de parlamentares judeus ou árabes na esplanada até segunda ordem. Essa é uma tentativa de evitar provocações dos dois lados: nos últimos meses, alguns ministros e parlamentares tentaram impressionar seus eleitores com ações populistas que incluíam subir à esplanada das mesquitas, rezar por lá (no caso de parlamentares judeus), o que é um tabu, ou pregar discursos inflamatórios (no caso de árabes). Além disso, 500 unidades planejadas para serem construídas além da linha verde (fronteira entre os territórios ocupados e o resto de Israel) foram canceladas.

Na prática, nenhum dos lados da história sabe exatamente como reagir. A Autoridade Palestina e o Fatah, na figura do presidente Abu Mazen, têm seu poder contestado. Eles não tem qualquer controle sobre essas ações e estão começando a entender que a médio e longo prazo essas ações podem vir a ter o efeito contrário do desejado: ao invés de uma ação contra Israel, se tornar um movimento de contestação do próprio governo palestino. E embora não estejam tomando medidas contundentes para frear a movimentação, as forças de segurança palestina estão trabalhando em conjunto com o exército israelense na tentativa de, pelo menos, manter a situação sob o mínimo controle.

Hamas está fazendo tudo o que pode para incentivar a movimentação. Tem pouco a perder com ela e muita motivação religiosa. Mas seu braço na Cisjordânia não tem a mesma força que tem em Gaza. Eventualmente um ou outro foguete sai de Gaza, mas são poucos, espaçados e pouco efetivos.

Já Israel tem muito pouco que possa fazer. A atitude de Netanyahu de proibir a entrada de parlamentares no Monte do Templo foi acertada. Mas tardia. Too late, too little. Ações locais por unidades especiais tem dado conta das manifestações mais violentas. Netanyahu, dentro de sua coalizão de extrema direita, está com as mãos politicamente atadas. Ele é hoje, ironicamente, o membro mais moderado do governo. O que não é fácil, quando parte da população exige respostas imediatas e igualmente violentas. Hoje pela manhã um judeu esfaqueou quatro árabes em Dimona, no sul de Israel. Ontem, Nir Barkat, prefeito de Jerusalém pediu aos cidadãos que tivessem licença para portar armas que o fizessem ao circular pela cidade.

Mas o maior inimigo de Israel hoje é o Facebook e o Twitter. As duas plataformas sociais estão inundadas de propaganda violenta e messiânica, promovendo mais atentados, mais assassinatos e mais ação do lado palestino. Servem também para espalhar o resultado de ações contra israelenses, verdadeiras ou não.

Se isso é ou será uma Intifada, é difícil de calcular. Hoje é sexta-feira, dia das rezas muçulmanas nas mesquitas. É possível que a população exploda em terrível violência mais uma vez. É possível também que haja alguma moderação por parte das lideranças ao longo do tempo.

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Comentários    ( 11 )

11 Responses to “Violência e terror em Israel”

  • Raul Gottlieb

    09/10/2015 at 14:56

    Gabriel, os palestinos dizem que a presença de turistas judeus em Al Aksa profana o local sagrado e ninguém neste imenso mundo fala nada.

    Vamos supor que as seguintes frases fossem faladas por aí:

    A presença de turistas muçulmanos profana o Vaticano.
    A presença de turistas árabes profana o Yad Vashem.
    A presença de estudantes negros profana a nossa universidade.

    O que aconteceria?

    Se alguém ainda precisava de uma prova para confirmar o racismo da liderança palestina, não precisa mais.

    Abraço, Raul

    • Gabriel Paciornik

      09/10/2015 at 20:18

      Sentir-se profanado é uma questão religiosa. A resposta que se dá a isso te dá o seu nível de maturidade. Não sou uma pessoa religiosa, então não concebo o conceito de profanação. Quanto a resposta que se dá a isso, só posso rejeitar qualquer forma de violência: o mais baixo nível de maturidade.

      Abraços!

    • Mario S Nusbaum

      12/10/2015 at 03:19

      Também não sou religioso Gabriel, mas consigo conceber o conceito de profanação. Por exemplo: alguém com uma braçadeira nazista cantando a Horst-Wessel-Lied (hino do partido) no Yad Vashem.
      E eu diferencio a violência em reação a outra da gratuita, para mim são completamente diferentes.

    • Mario S Nusbaum

      12/10/2015 at 03:22

      Só mais uma coisinha, e se alguns rabinos decidirem que a presença de muçulmanos profana o Temple Mount, o que você acha que o governo israelense deveria fazer? Em um país democrático líderes religiosos não podem ter o direito de proibir quem quer que seja de frequentar um espaço público.

    • Mario S Nusbaum

      12/10/2015 at 03:25

      Sempre pergunto porque posso entrar no Vaticano mas não na Al-Aqsa (eu até já entrei, em 1981), mas nunca tive uma resposta convincente.
      E outra coisa, não deve ser muito difícil achar um judeu ortodoxo que ache a presença de muçulmanos em Jerusalém uma profanação.
      Imagine se o governo decidisse atende-lo!

  • Eloi Laufer

    09/10/2015 at 20:05

    Eu entendo, e isto após haver lido muito sobre a questão, de que está na hora de Israel ocupar todo o Território Palestino e a Faixa de Gaza e incorporá-los a área geográfica e política de Israel, criando um Estado Federado, com o que estaria eliminada a questão das barreiras internas que dificultam tanto a vida dos Palestinos (Filisteus) e elevaria seus padrões de vida e de educação. Ou então, uma segunda opção: construir uma barreira física constituída de um muro em toda a extensão da fronteira, devolvendo alguns territórios ocupados e retirando os assentados. Permitindo a construção de um Aeroporto e dando a independência completa aos Palestinos e Faixa de Gaza, que adquiririam o Status de País Independente. Pois a famosa solução hitleriana esta totalmente fora de questão, que no entanto parece ser acalentada pelos países árabes da região, já que eles não querem receber refugiados oriundos dali.

    • Gabriel Paciornik

      09/10/2015 at 20:27

      Você cita algumas das soluções propostas. Todas elas dependem de muita negociação, boa vontade e confiança. No momento não há nenhum dos três.
      No mais, palestinos não são descendentes dos filisteus.

  • Mario S Nusbaum

    09/10/2015 at 20:10

    Desde o começo de 1948, seguindo uma tendência que já dura mais de 67 anos, Israel tem passado por uma singular onda de ataques.

    Por que Israel tem muito pouco que possa fazer Gabriel? Essas bestas assassinas são tão poderosas assim?

    Vou aproveitar para perguntar algo que me incomoda há muito tempo, o status-quo do Temple Mount, e peço que vocês todos opinem e contem qual é o pensamento da população em geral:

    O que o mundo diria se os EUA proibissem a entrada de muçulmanos em um pedaço de Nova York? E se Israel proibisse a entrada de protestantes no Santo Sepulcro? O mundo e a ONU, com toda razão, protestaria. Mas proibir a entrada de um grupo religioso MAJORITÁRIO, em um local sagrado para ele é considerado normal!

    • Gabriel Paciornik

      09/10/2015 at 20:34

      Não é considerado normal. É considerado o status quo. E este, não é normal. O pensamento da população geral não existe. Há uma importante diferença na opinião e na importância dada ao monte do templo de acordo com a demografia.

  • Mario S Nusbaum

    09/10/2015 at 20:12

    Quando um anti-semita diz que não existe liberdade religiosa em Israel as vezes eu respondo dizendo que ele tem razão, que judeus são proibidos de rezar no Temple Mount

  • Marcelo Starec

    10/10/2015 at 21:22

    Oi Gabriel,

    Excelente artigo!…Parabéns!…No que diz respeito ao Abbas, eu entendo que sim, ele incitou a violência ao fazer um decepcionante discurso na ONU deixando claro que vai ignorar os Acordos de Oslo, assinados por seu próprio partido e ainda a declaração que fez dizendo que os palestinos deveriam defender a mesquita de Al-Aqsa com o seu próprio sangue!!!…Um discurso com vies extremista e provocador. Ao mesmo tempo, o Hamas grita pelo “fim da ocupação” por meios violentos (guerra!) e tem em seus estatutos e nunca esconderam de ninguém – ou seja, são claros e honestos! – o seu real objetivo de “jogar os judeus ao mar” (um óbvio genocídio!)…Nada de novo!…Por outro lado, entendo que hoje claramente se o Abbas fizer as eleições (já que ele está de certo modo usurpando o cargo a uns 7-8 anos) ele perde feio, quem ganha é o Hamas!…E digo mais, é certo que o Abbas não tem condição para ceder e permanecer no poder na forma democrática, assim ele não tem como acordar algo que represente concessões – tipo “abrir mão” de aceitar 5 milhões de “descendentes de refugiados” muçulmanos dentro de Israel….Enfim, não está fácil hoje enxergar qualquer solução que envolva um novo pacto com essas lideranças palestinas que estão aí…Infelizmente!….Sei que muitos acham que tudo é simples, basta por exemplo retirarmos os judeus da Judeia e Samaria e o Exército de lá, mas isso é utópico, pois a meu ver o resultado mais provável será a criação de mais um “Estado Terrorista” em volta de Israel, com a mais do que provável derrubada do Abbas do poder…Esse Estado se juntaria aos demais que cercam boa parte de Israel…O Grupo Terrorista Hezbolla na fronteira com o Líbano e o Hamas na com Gaza…Conclusão, não há a curto prazo muito o que ser feito mesmo, a não ser que alguém efetivamente “pense fora da caixa” e apareça com alguma solução nova , criativa e viável para ambos (judeus e árabes) – ninguém vai “desaparecer” de lá!!!….

    Um abraço,

    Marcelo.