Visitinha a Kerem Shalom

09/12/2015 | Conflito; Economia

O coordenador de Kerem Shalom, a única porta de entrada e de saída de mercadorias de Gaza, é um cara tenso. Ami Shaked só sorri quando quer expressar ironia. É fácil entender o porquê: ele coordena a engrenagem do terminal que permite a entrada de 900 caminhões por dia carregados de absolutamente tudo o que abastece Gaza atualmente. Tapetes, materiais de construção, produtos de supermercado, alimentos, equipamentos médicos. Pense naquilo que uma população de quase 2 milhões de pessoas precisa para viver: é isso o que passa todos os dias por Kerem Shalom, uma fronteira como nenhuma outra no planeta.

Tem-se dali uma vista privilegiada. De um lado, avista-se Gaza; do outro, Egito. É uma construção formada por 11 grandes “depósitos” de concreto, com paredes de 20 metros de altura, conduzida por Ami e seus 200 funcionários. Ele é um ex-oficial que comanda uma equipe civil. Todos os seus metros quadrados são vigiados por câmeras, cujo controle é centralizado em um escritório apertado e bagunçado, onde Ami é rei. De lá eu vi, enquanto acompanhava uma delegação de políticos brasileiros em visita extra-oficial a Israel, um túnel que o Hamas está escavando a menos de 500 metros dali. “Sei que estão cavando, mas não sei para que direção o túnel leva. Pode ser Israel, pode ser Egito. Em algum momento infelizmente saberemos”, nos contou Ami, com seu tradicional sorriso irônico.

Um dos 11 reservatórios do terminal Kerem Shalom
Um dos 11 reservatórios do terminal Kerem Shalom

Ele detesta essas visitas, mas guiá-las faz parte de suas incumbências diárias. Certamente essa rotina única, de ser o responsável por esse vai-e-vem de mercadorias, é uma das razões. Afinal, ele controla o perigo de mão-dupla: por um lado, um erro de inspeção pode permitir a passagem de materiais que abasteçam o arsenal do Hamas; por outro, pode cooperar para um atentado contra a vida de sua equipe ou da população israelense. Mas ao saber que hoje ele mora em Nitzan, povoado ao sul de Israel que acolheu israelenses que foram evacuados à força de Gaza na retirada de Israel dali em 2005, tive razões para imaginar que ele não concorda com a política da qual ele é peça fundamental. E comecei a fantasiar no quanto pode ser terrível imaginar que a região que ele chamava de lar é hoje uma bomba-relógio, pronta a explodir a qualquer momento, sem aviso.

Ami fala de seus 200 funcionários como se falasse de seus filhos. Ali trabalham árabes, judeus, homens, mulheres. Todos civis, parte deles circulando com uma metralhadora atravessada no corpo. Os motivos são óbvios: apesar de ser o único local pelo qual os palestinos de Gaza podem receber e enviar produtos (sim, há exportação de Gaza, principalmente de produtos agrícolas, ferro-velho e móveis), é o segundo melhor alvo do Hamas, que perde apenas para as comunidades israelenses localizadas em suas fronteiras. Prova disso são os últimos três atentados ocorridos ali nos últimos cinco anos. Do lado israelense, houve alguns feridos, enquanto do lado Egito somaram-se 16 mortos. 

Transitamos por alguns dos reservatórios gigantescos e sem teto, que funcionam em tempos de paz e de guerra, ininterruptamente. Os produtos ali são divididos por categorias, e cada tipo tem o seu dia e horário para passar. Essa rotina segue uma ordem lógica, com o transporte de alimentos frescos nas primeiras horas da manhã. Tudo o que entra e sai é checado com o apoio de imensos scanners. A carga é transportada ao longo de 400 metros de solo israelense até a fronteira final. Ali, os contâiners são descarregados e caminhões palestinos os levam até seu destino final. Os motoristas israelenses fazem esse percurso neurótico dezenas de vezes por dia, sob a mira de metralhadoras controladas à distância posicionadas no topo de torres israelenses de concreto.

Mercadorias esperam inspeção e liberação em Kerem Shalom
Mercadorias esperam inspeção e liberação em Kerem Shalom

Do alto de um dos paredões de Kerem Shalom, observamos todo esse deslocamento, as metralhadoras, as cercas de arame farpado, prédios de Gaza ao fundo, o deserto do Egito do outro lado. Ami também nos apontou, a um quilômetro dali, a fatídica torre de controle de onde Gilad Shalit foi sequestrado. Ele também nos mostrou, dentro de um dos reservatórios, uma grotesca cratera no chão causada pela queda de um morteiro, assim como a trilha de seus estilhaços que transformou em peneira uma parede de metal. “Esse é o estrago causado sobre o ferro. Agora talvez vocês possam imaginar o que causa em um corpo humano”, disse o sorridente e irônico Ami.

Eu prefiri não imaginar.

Em sua salinha de controle, que não se parece nada com as dos filmes americanos, Ami nos contou que até 2012 era responsável pela passagem de 300 caminhões por dia. Esse número triplicou após o fechamento dos túneis clandestinos entre o Egito e Gaza, que foram interditados pelo governo egípcio após um atentado terrorista naquele ano. Isso elevou o status de Kerem Shalom para a única porta de comunicação de Gaza para o mundo – ironicamente sob controle do país que os palestinos consideram seu maior inimigo. Um dos participantes da delegação brasileira perguntou: “Por que então Israel simplesmente não fecha essa entrada e deixa que os palestinos se virem sozinhos?”

Ami sorriu e permaneceu quieto.

Comentários    ( 4 )

4 comentários para “Visitinha a Kerem Shalom”

  • Haim Dorin

    10/12/2015 at 17:17

    Miriam, adorei !!!
    Abraços,

    Jaime

  • Marcelo Starec

    17/12/2015 at 23:35

    Oi Miriam,

    Parabéns pelo excelente artigo!…É a primeira vez que tenho a oportunidade de ler um artigo, escrito em português, detalhando o funcionamento de Keren Hashalom – de onde todos os dias Gaza recebe uma grande quantidade de mercadorias necessárias a sua população e as vezes, infelizmente também, utilizadas pelo Hamas para fins terroristas – como todos estão cansados de saber!…Esse controle, que inclusive tem o aval da ONU, é obviamente necessário tendo em vista o Grupo islâmico radical que controla Gaza – o Hamas, mas alguns teimam em “esquecer” o óbvio motivo pelo qual Israel é obrigado a fazer este controle, contudo não impede a passagem do que a população necessita – e a liberação desse controle somente traria como resultado mais foguetes, mais ataques terroristas e enfim mais agressões à Israel – e nenhuma melhoria para a população de Gaza. No final, é tão somente o fortalecimento do extremismo islâmico que é defendido quando grupos lutam contra o controle daquilo que entra em Gaza…E concluindo, se dependesse do Egito, que conhece bem como agem esses extremistas do Hamas, a fronteira com Gaza estaria devidamente lacrada – nada iria entrar ou sair de lá!!!……

    Abraço,

    Marcelo.

    • Miriam Sanger

      20/12/2015 at 16:53

      Olá, Marcelo, tudo bem?
      Concordadíssimo.
      Obrigada pela mensagem e um abraço,
      Miriam

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