Vivemos um conflito imperialista?

29/01/2016 | Conflito.

Há pouco mais de três anos chegou às minhas mãos o panfleto “A Verdade”, revista teórica da 4ª Internacional[ref]Organização Comunista Internacional composta por seguidores de Leon Trotsky (trotskistas)[/ref], datada de abril de 2011. Esta publicação continha artigos sobre temas bastante atuais, como o destino da Tunísia e do Egito (antes mesmo que o termo Primavera Árabe se tornasse praticamente consensual), as “contrarreformas” de Raul Castro, o ecossocialismo e a questão palestino-israelense. Contrariando a lógica, comecei a ler a revista pelo primeiro artigo, e não pelo que tratava de Israel.

O artigo em questão chama-se “Tunísia, Egito: para a 4ª Internacional, sim, a revolução está em curso”, escrito por Lucien Gauthier. Ele trata da derrubada dos governos ditatoriais, imposta pelas potências ocidentais, como princípio de uma revolução socialista. Não é necessário estarmos quatro anos à frente do artigo para sabermos que os líderes das revoltas não eram exatamente socialistas: o autor do artigo também tinha esta consciência ao escrevê-lo. Gauthier sabe que parte importante dos integrantes dos movimentos que provocaram a queda dos dois governos era formada por islamistas, que estão ideologicamente a léguas de distância dos trotskistas[ref]Embora, resulta necessário citar, a Tunísia é um dos raros casos de triunfo da democracia entre os países nos quais ocorreram levantes em 2011[/ref]. Sendo assim, por que considerar estes movimentos como os precursores da revolução?

Entre diversas citações de Leon Trotsky no artigo, uma das que me chamou a atenção faz parte de uma entrevista concedida em 23 de setembro de 1938, ao operário argentino Mateo Fossa. Ao ser questionado sobre o futuro dos movimentos revolucionários na América Latina, o revolucionário russo assim respondeu:

(…) Nos países da América Latina, os agentes dos imperialismos “democráticos” são particularmente perigosos, porque são mais capazes de enganar as massas que os agentes declarados dos bandidos fascistas. Eu tomarei o exemplo mais simples e mais demonstrativo.

Existe atualmente no Brasil um regime semifascista que qualquer revolucionário só pode encarar com ódio. Suponhamos, entretanto que, amanhã, a Inglaterra entre em conflito militar com o Brasil. Eu pergunto a você de que do conflito estará a classe operária? Eu responderia: nesse caso eu estaria do lado do Brasil “fascista” contra a Inglaterra “democrática”. Por que? Porque o conflito entre os dois países não será uma questão de democracia ou fascismo. Se a Inglaterra triunfasse ela colocaria um outro fascista no Rio de Janeiro e fortaleceria o controle sobre o Brasil. No caso contrário, se o Brasil triunfasse, isso daria um poderoso impulso à consciência nacional e democrática do país e levaria à derrubada da ditadura de Vargas. A derrota da Inglaterra, ao mesmo tempo, representaria um duro golpe para o imperialismo britânico e daria um grande impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês. É preciso não ter nada na cabeça para reduzir os antagonismos mundiais e os conflitos militares à luta entre o fascismo e a democracia. É preciso saber distinguir os exploradores, os escravagistas e os ladrões por trás de qualquer máscara que eles utilizem!

Gauthier utiliza este trecho para apontar o imperialismo como o principal inimigo da classe operária em todo o mundo. Até mesmo um governo semifascista seria preferível ao “imperialismo democrático”, pois, segundo o autor, esta seria uma questão primordial e os regimes locais seriam submissos ao imperialismo.

Leon Trotsky
Leon Trotsky

Ponto de vista interessante, porém, não me convenceu. Esta interpretação de uma resposta de Trotsky a uma questão relevante ao ano de 1938 me parece demasiado determinista. Além disso, o anacronismo beira ao absurdo. Infelizmente, não podemos questionar o entrevistado hoje em dia, saber qual seria sua opinião 70 anos mais tarde, não se pode entretanto desconsiderar as catástrofes produzidas pelo fascismo (e seus desdobramentos) em todo o mundo após o ano de 1939. O avanço das forças da extrema direita foi tamanho que conseguiu unir a URSS stalinista e os imperialismos norte-americano e britânico em uma luta comum (fora outros dos mais diversos aliados). Mas esse não deixa de ser um ponto de vista interessante. Além disso, a suposição de que tal vitória militar resultaria na derrubada de Vargas não pode ser considerado um fato consumado, e a história de lá para cá não nos mostrou fato semelhantes.

A premissa de que a vitória dos islamistas (em algumas ocasiões do Hamas, e em outras do Hezbollah) resultaria no fim do imperialismo israelense (que incontestavemente, segundo tais artigos, estaria diretamente relacionado ao imperialismo norte-americano e à exploração dos recursos naturais no Oriente Médio), e tal derrota do imperialismo seria uma espécie de catalisador para a intensificação da luta de classes me soa quase que infantil. Me custa compreender os que vêem Hamas e Hezbollah como resistências populares, uma espécie de mal justificável, necessário para a solução de um problema maior: o imperialismo capitalista.

Há analistas, como Noam Chomsky[ref]Ver seu livro “Piratas e Imperadores”[/ref], que defendem a tese de que o sionismo se choca com o ideal final norte-americano: um Oriente Médio colonial, com governos liberais-democráticos, cuja paz resultaria em maior exploração imperialista dos recursos e das populações locais. O sionismo, por sua vez, expansionista por definição (sic), não permite a plena ação imperialista norteamericana na região, e esta seria a razão pela qual o Presidente Obama está em plena crise com os últimos governos direitistas israelenses.

O que me surpreende nesses dois raciocínios é a necessidade de determinados analistas de generalizações, de voltar ao marxismo ortodoxo e sectário, mostrando-se incapazes de relativizar um mínimo que seja o contexto do Oriente Medio e reinterpretá-lo. Custa-me aceitar que em pleno século XXI, com o Estado Islâmico avançando fronteiras adentro no Oriente Médio (sendo combatido por socialistas curdos), ainda haja gente que os conceitue como “força anti-imperialista de resistência”. Grupos islamistas como o Hezbollah, o Hamas, o Boko Haram e o Estado Islâmico (ISIS) são o que de mais imperialista há no mundo hoje em dia. Não defendo que sejam todos iguais: as estratégias do Hamas são menos nocivas do que as do ISIS, pois o grupo palestino tem pretensões políticas (muito mais semelhante à Irmandade Muçulmana, por exemplo). Comparo, sim, as práticas e ideologias: o Hamas assassina cristãos em Gaza. O ISIS extermina diariamente dezenas de pessoas que se recusam a aceitar a sua doutrina do islã. Curdos, nacionalistas árabes, drusos, Al-Qaeda, cristão e xiitas já os combatem, e em breve possivelmente até mesmo os judeus os combaterão. É preciso ser muito alienado para enxergar esses grupos como “movimentos de resistência”. Sua resistência ao capitalismo internacional é semelhante ao que propunha o nazismo: são anti-liberais, mas defendem uma burguesia nacional altamente corrupta e que explora os trabalhadores. São nacionalistas radicais, sua nação é o islã, e seus inimigos são tratados com horrores semelhantes.

Logo do "Luta Socialista"
Logo do “Luta Socialista”

Compreendendo a situação, há um grupo trotskista, chamado Luta Socialista [ref]Em hebraico Maavak Sotzialist e em árabe Harakah Al-nidal al-Ashteraki[/ref], ligado ao CIT (Comitê Internacional dos Trabalhadores) que deixou de observar a situação a partir de uma ótica maniqueísta, como se Israel fosse um braço do imperialismo norte-americano, e os grupos palestinos simples movimentos de resistência. O movimento compreende que há opressão dos dois lados (embora do lado israelense seja mais significativa, pois há um ocupador e um ocupante), e reconhece a solução de dois Estados como justa e legítima. A Luta Socialista crê que o caminho para a resolução do conflito, que separa a luta de classes, passa pelo reconhecimento à autodeterminação nacional dos dois povos[ref]Veja o informe do movimento paralelo no Brasil aqui e uma coluna sobre o islã e a esquerda revolucionária.[/ref].

O tempo nos mostrou que o semifascismo tupiniquim dos anos 1930 não se assemelha aos grupos radicais islâmicos, nem ideologicamente, nem na sua prática. Outra lição da história é a de que os grupos oriundos do fascismo são muito mais nocivos à classe trabalhadora do que o imperialismo capitalista. A terceira lição que alguns grupos marxistas ortodoxos ainda não compreenderam é que os movimentos de libertação nacional e autodeterminação são movimentos legítimos, mesmo quando alguns Estados nacionais assumem por advento da história papéis opressores. Isto não anula esta etapa como necessária no processo histórico dos povos, e deslegitimá-la não provoca consciência de classe, mas sim, resistência a ela. Quando isso acontece no Oriente Médio, então, o problema é ainda maior: quando se deslegitimiza Israel, não se enfraquece o imperialismo, mas, sim, lhe dá razões para crescer. Um imperialismo bem mais perigoso, com traços de fascismo, e cujo inimigo são todos os outros que não ele.

Não é necessário ser sionista para reconhecer que a opção por dois Estados é a mais humana e necessária no momento. Até mesmo a Luta Socialista, que de sionista não tem nada, compreende a situação. Quem vive e compreende a situação sabe que reduzir o conflito entre imperialistas e oprimidos, para o qual a única solução seria o fim do Estado de Israel, não condiz com a realidade. O sectarismo e a ignorância não permitem que alguns possam visualizar esta situação. Uma lástima.  

Comentários    ( 0 )

Você é humano? *