Vizinhança

26/02/2014 | Vídeos

Imagens são palavras que nos faltaram

A frase acima foi criada pelo poeta brasileiro Manoel de Barros. Seus poemas podem ser definidos como “deslimites da palavra”. São capazes de produzir inúmeros sentimentos e arrebatamentos em seus leitores. Manoel nos ensina uma nova forma de olhar o mundo. Suas poesias formam imagens na vista do leitor – é o que ele chama de “desenho verbal”.

Inauguramos hoje uma nova página de autores no ConexãoIsrael.org, que será construída pelos “irmãos cineastas” Felipe e Ricardo Wolokita. Desejamos oferecer aos nossos leitores um olhar diferente sobre Israel, que não poderá ser encontrado em textos escritos, mas que virá através de imagens. Um olhar com a poesia de Manoel.

O vídeo de estreia – “vizinhança” – escolhido pelos irmãos Wolokita para o início dos trabalhos é, sem sombra de dúvidas, influenciado pela obra do poeta. E por isso a referência merecida.

As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis. Elas desejam ser olhadas de azul

Sempre achei esta frase incrível! Manoel escreve estas palavras partindo de um ponto incomum: são as “coisas” pedindo ao mundo que as libertem de uma visão monolítica. São as “coisas”, os “objetos”, tudo o que está a nossa volta, pedindo “socorro” aos homens para que as libertem da pobreza da descrição. Se uma cadeira é só uma cadeira e um bule de café é só um bule de café, então o mundo fica menor e o mundo fica muito mais triste.

O olhar que identifica o universo de possibilidades que uma cadeira oferece é aquele capaz de criar a poesia.

Eu confio em Manoel. E eu confio nos irmãos Wolokita. Acredito que as “coisas” podem nos ensinar uma nova forma de abordar o nosso cotidiano. Convido vocês a observar alguns poucos minutos sobre o mundo das “coisas” que existem ao redor da casa dos cineastas.

Afinal de contas, como será que as cores, texturas, estátuas, muros, garrafas, panfletos, fontes e ruas enxergam a “nossa” Tel Aviv?

Marcelo Treistman

Comentários    ( 7 )

7 comentários para “Vizinhança”

  • RITA BURD

    26/02/2014 at 18:45

    Amei. Cineastas Brothers Wolo, kol hakavod
    Rita

  • Bruno Gottlieb

    26/02/2014 at 23:41

    Adorei o vídeo! Adorei a ideia da coluna!! Parabéns!!!

  • Raul Gottlieb

    26/02/2014 at 23:58

    O vídeo me fez ter dois pensamentos. O primeiro é um hai kai do Millor, onde ele diz:

    “Uma imagem vale mil palavras”
    “Agora, por favor, faça uma imagem que expresse esta ideia”.

    O segundo é algo que eu li há muitos anos atrás num maravilhoso livro humorístico italiano, escrito no período entre as duas guerras mundiais por Nizza e Morbelli (que eu duvido que algum leitor do Conexão conheça, mas que tenho que citar em reverencial homenagem, visto que eles moldaram muito da minha identidade). Eles diziam algo assim, ao comentar a arte moderna de seu tempo (há cerca de 80-90 anos atrás):

    Antigamente (no tempo dos grandes clássicos – Goethe, Dante, e até antes, Michelangelo, Rembrandt, etc.) o material com o qual se produzia arte era muito caro e demandava muito esforço. Por exemplo, a tela e as tintas para pintura custavam uma fortuna. O papel de escrita era escasso e dava muito trabalho escrever à mão. E assim por diante (eles desfilaram mais exemplos, mas só me lembro destes). Hoje é tudo muito barato e simples e por isto todo mundo se arrisca a produzir arte. O cara simplesmente coloca um traço no meio de uma tela branca e diz que fez um quadro. A produção artística é quantitativamente imensa.

    Foram estas as coisas que pensei quando vi o vídeo sobre a garrafa de água mineral e outras emocionantes cenas do mesmo contexto. Está tudo barato demais! Muito mais barato, inclusive, do que há 80-90 anos.

    • Marcelo Treistman

      27/02/2014 at 11:28

      Raul,

      O seu comentário me fez ter dois pensamentos:

      Uma imagem vale mil palavras”
      “Agora, por favor, faça uma imagem que expresse esta ideia”.

      Lembrei imediatamente desta imagem aqui – o que você acha? Ela não vale 1000 palavras?

      O segundo pensamento é sobre a sua história no livros de Nizza e Morbelli. Manoel de Barros, citado no texto de abertura do vídeo, teria a resposta exata aos italianos, e de certa forma, vale pra você também:

      “A expressão reta não sonha.

      Não use o traço acostumado.

      A força de um artista vem de suas derrotas.

      Só a alma atormentada pode trazer para a voz um

      formato de pássaro.

      Arte não tem pensa:

      O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.

      É preciso transver o mundo.”

      Raul, tente transver o mundo… Ele ficará mais azul.

      Abraços

  • Marcelo Starec

    27/02/2014 at 06:07

    Muito original e interessante! Gostei!
    Abraço,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    27/02/2014 at 17:55

    Marcelo,

    A imagem do disco do Tomzé é dos anos 1960 ou 70, por aí e eu já achava ela de mau gosto naquela
    época, se bem alguns amigos achavam aquilo “genial”. Acho que ela continua valendo estas mesmas duas palavras: “mau gosto”. Sei lá quais outras 998 palavras você pode achar para explicar o trocadilho vulgar que ela representa. Mas não tenho nada a obstar se você quiser se lançar a este exercício.

    Sobre o mundo azul, também tenho algumas considerações:

    Ser monocromático melhora exatamente o que? O mundo policromático me parece mais interessante. Menos monótono, mais desafiador, mais humano e menos animalesco. O Paraíso era azul e era chato para dedéu – pergunte para Eva.

    Este “azul”, que é uma metáfora de “tudo bem”, não reflete a realidade do mundo, que é cheio de matizes, cheio de bem e mal. Ele é policromático. Esta coisa de imaginar que se você olhar o mundo exclusivamente pelo lado positivo vai ter uma vida melhor, me parece uma bobagem do tamanho do Pão de Açúcar. Ou seja, tão grande como uma montanha e adocicada.

    Isaias já sabia disso há alguns milhares de anos. Disse ele de Deus “Eu crio a luz e faço surgir a escuridão, crio a paz e faço surgir o mal”. Mestre Isaías percebeu que o mundo era cheio de bem e mal e todos os demais tons intermediários.

    Você pode dizer que se olharmos o mundo apenas pelo lado positivo (azul) a nossa vida melhora. Mas eu discordo frontalmente disto. Temos que olhar o mundo como ele é e tirar o prazer dele sem ignorar o mal e as coisas desagradáveis. A mensagem “olhe apenas para o lado azul das coisas” ou “tente olhar apenas para o lado bom das coisas” me parece infantil e alienadora.

    Veja esta notícia: http://www.gatestoneinstitute.org/4192/human-rights-palestinian-islamic-culture. O que tem de bom aí a não ser o fato de nós não vivemos do lado de lá da fronteira?

    E, finalmente, sobre o teu conselho de transver o mundo, eu informo que o fato de eu achar que algumas manifestações artísticas só vêm à luz porque está barato demais produzi-las não me deixa nada triste ou amargurado.

    O meu mundo é metaforicamente azul celeste, justamente porque eu me esforço para identificar o que gosto do que não gosto e, quase sempre, me dando a liberdade de expressar a minha opinião. Se fosse para ver azul em tudo eu ia ser bem infeliz.

    Abraço, Raul

    • Ricardo Gorodovits

      04/03/2014 at 09:11

      Raul,

      No caso, a frase original não pretende que as coisas sejam vistas de
      uma maneira mais positiva, sendo o azul utilizado com essa intenção. A
      frase propõe uma dupla mudança de perspectiva para criar um olhar
      diferente. Um olhar pela demanda do que observamos (que tem a ver com
      o que Rodin, por exemplo, dizia, que sua arte era dar à pedra o
      formato que ela lhe pedia. E ainda um olhar “de azul”, do infinito,
      amplo o bastante para que tudo possa ser observado.
      Qunato à arte, para mim ela é muito mais fruto do que me toca, me
      emociona, me inspira, do que fruto do esforço que alguem precisou
      fazer, ou seja, há arte boa ou ruim sendo os recursos para
      desenvolvê-la caros ou baratos, de raro acesso ou disponiveis em
      qualquer esquina. E certamente, não terá uma avaliação unânime, o que
      também não me faz falta.

      Aproveitando, gostei da introdução, Marcelo. Dessa vez, mais do que do filme.

      Abraço, Ricardo

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