Yair Lapid é o novo Bibi Netanyahu?

06/03/2013 | Eleições; Política

Confesso que não me lembro das eleições israelenses de 1996. Seria pedir demais de um garoto brasileiro de 12 anos.

Mas pelo que leio a respeito, com destaque para as narrativas acerca do debate televisivo entre Benjamin Netanyahu (o “desafiante”) e Shimon Peres (ocupando o cargo de primeiro-ministro, herdado após o assassinato de Yitzhak Rabin), tratou-se de um embate entre o “moderno” e “aquela velha política de sempre”.

Na ocasião, claro, Bibi representava um novo tipo de político: nascido em Israel (entre todos os primeiros-ministros anteriores, apenas Rabin era “sabra”), formação acadêmica no exterior (o primeiro premiê a tê-lo) e capaz de falar inglês sem sotaque (algo que até hoje impressiona os israelenses, e angaria votos numa esperança de que sua facilidade de comunicação com os demais líderes internacionais contribuirá para que Israel seja levada mais a sério).

Shimon Peres, atual Presidente do Estado de Israel, então líder do Partido Trabalhista, era o símbolo de uma velha geração de políticos, nascidos na Europa Oriental, no poder desde a fundação do Estado, pela qual haviam batalhado muito, duros como a vida judaica na Europa do início de século XX e nos primeiros anos de vida do jovem Estado de Israel.

Ainda que a vitória de Bibi* tenha sido apertadíssima: menos de 30 mil votos, cerca de 1%, a impotência de Peres diante de toda a articulação e juventude de Netanyahu no debate transmitido pela televisão tornou-se uma cena clássica da memória política coletiva israelense. Era como se uma página estivesse sendo virada nos livros de história.

O primeiro governo Netanyahu foi um banho de água fria no processo de paz. Mesmo tendo se comprometido inicialmente à sua continuidade, o que se deu foi o congelamento da gradual transferência de autonomia aos palestinos, prevista nos Acordos de Oslo e que deveria culminar na independência palestina ao final da década de 1990. De um clima de euforia, baseado nas perspectivas que a paz trazia, o país foi levado de volta ao marasmo do status quo da ocupação.

Há um mês e meio, após uma campanha eleitoral que, ainda que ambiciosa, não despertou grandes expectativas, Yair Lapid emergiu como o grande vencedor das últimas eleições. Ao longo das últimas semanas, à medida que avançam as negociações partidárias para a formação do próximo governo israelense, fica claro que Lapid ocupa hoje o papel de “político refrescante” no cenário nacional. Netanyahu está simplesmente sem saber como reagir às suas exigências (principalmente no que diz respeito à “igualdade na divisão do fardo”, a famosa questão do serviço militar dos ultra-ortodoxos).

Neste ponto, ainda que fique claro que é possível facilmente formar um governo com partidos que apoiem a proposta, vemos os infrutíferos esforços do atual primeiro-ministro para atrair outros partidos para a sua coalizão (como os trabalhistas, por exemplo), de modo que não se veja obrigado a desagradar seus aliados naturais, os ultra-ortodoxos.

E porque Bibi se comporta assim?

Bibi também já percebeu que o poder agora está nas mãos de Lapid, que é ele quem representa as vontades de grande parte da sociedade israelense. É ele quem puxou pra si a questão do serviço militar obrigatório para os ultra-ortodoxos, que incomoda a maioria laica do país há décadas, mas os “antigos políticos” não tinham a coragem política de abordá-la. E aí, ironicamente, vemos que Bibi, depois de quase 20 anos, passou a ser enquadrado na categoria de “antigos políticos”.

O preocupante desta história toda, é que Lapid, um homem da mídia, soube escolher um ponto “unânime” do inconsciente coletivo israelense para tomar como sua bandeira nestas eleições. Sua posição sobre questões mais polêmicas não está nada clara. Aparentemente, sua aliança com Naftali Bennet e a eventual entrada de ambos na coalizão de governo se dará sob o custo de mais quatro anos ignorando a questão da ocupação.

Resta saber se o “cheirinho de novo” que Lapid trouxe à política israelense, com a inegável coragem de abordar a “desigualdade na distribuição do fardo”, e a exigência de um governo enxuto (um máximo de dezoito ministros, em oposição aos quase trinta atuais) não evaporará rapidamente, uma vez que a legislação competente seja aprovada e lhe faltem novos objetivos a impor a seus colegas de coalizão.

Resta saber se estamos presenciando o inicio de uma nova era, ou apenas mais um governo de homens, ashkenazim, laicos e ricos, que apenas acrescentaram os ultra-ortodoxos em sua lista de “inimigos número-um”.

Resta saber se Yair Lapid será um estadista ou apenas o novo Bibi Netanyahu.

* Em 1996, pela primeira vez, votou-se para primeiro-ministro separadamente das eleições para a Knesset. A tentativa de dar maior governabilidade ao país se repetiu em 1999 e 2001, antes de ser abortada e revertida ao parlamentarismo.

Foto de capa retirada de http://debuzzer.sport5.co.il/greisas/files/2012/12/793g5er3.jpg

Comentários    ( 7 )

7 comentários para “Yair Lapid é o novo Bibi Netanyahu?”

  • Paulinho

    06/03/2013 at 20:35

    Muito bom o paralelo!
    Não sabia desse fato a respeito das eleições de 1996.
    Vejo o Lapid como um oportunista, sem projeto para o país, apenas com propostas pontuais.
    Claudio, sei que não tem muito a ver com o tema, mas li umas notícias por aqui sobre um “ônibus para árabes” que sai da Cisjordânia para Israel.
    Procurei no Haaretz e encontrei essa matéria: http://www.haaretz.com/news/national/israel-introduces-palestinian-only-bus-lines-following-complaints-from-jewish-settlers-1.506869
    Queria saber como tá repercutindo isso aí?
    Enquanto escrevo esse comentário me veio uma ideia para este blog ficar ainda melhor. Poderia ter um fórum livre de discussão. O que acham?
    Fica a dica! hehehe
    Abraço

    • Claudio Daylac

      06/03/2013 at 21:17

      Paulinho,

      Obrigado pela sua visita e pelo seu comentário!

      Este paralelo eu fui construindo na minha cabeça ao longo destas últimas semanas, lendo alguns artigos de opinião e refletindo. Quando percebi, já tinha a comparação feita inconscientemente! E concordo com você sobre o Lapid não ter um projeto, assim como o Bibi também não tem: sua campanha foi a única sem uma plataforma de propostas, por exemplo, e sempre foi aliado dos ultra-ortodoxos, mas quando viu os resultados das eleições, automaticamente declarou que o próximo governo cuidaria da “igualdade na divisão do fardo”. Enfim, as semelhanças são bastante evidentes.

      Sobre os ônibus segregados, você pode imaginar o meu descontentamento com mais um passo dado rumo ao abismo do qual falo em meu post anterior. Ainda é um assunto novo aqui, mas gera polêmica. Muita gente defende o “conforto maior” pros palestinos, mas a verdade é que não se trata de uma opção e a polícia está autorizada a fazer valer a nova regra. Estamos apostando que a Suprema Corte eventualmente derrubará a segregação.

      A idéia do fórum é excelente! Por enquanto, o site está apenas engatinhando, mas com certeza é algo interessante para o futuro! Vou repassar a sugestão na próxima reunião da “diretoria”.

      Um grande abraço.
      Claudio

  • Mario Silvio

    06/03/2013 at 23:11

    “Sobre os ônibus segregados, você pode imaginar o meu descontentamento com mais um passo dado rumo ao abismo do qual falo em meu post anterior. Ainda é um assunto novo aqui, mas gera polêmica. Muita gente defende o “conforto maior” pros palestinos, mas a verdade é que não se trata de uma opção e a polícia está autorizada a fazer valer a nova regra. Estamos apostando que a Suprema Corte eventualmente derrubará a segregação.”

    Claudio,
    É óbvio que em uma situação normal isso seria inaceitável, mas você a conhece bem melhor do que eu, e sabe perfeitamente que ela é tudo, menos normal.
    O que você acha de ônibus separados para as torcidas aqui no Brasil? Se formos analisar pensando apenas em conceitos (democracia, igualdade de direitos, etc), é um absurdo, mas levando em consideração a REALIDADE, é a melhor solução possível, muito provavelmente a única.

    Em tese todos deveriam pegar o mesmo ônibus e quem praticasse qualquer ato de violência seria prêso e julgado, mas na PRÁTICA o que iria acontecer seriam mortos e feridos, todas as semanas.

    • Claudio Daylac

      07/03/2013 at 13:48

      Olá, Mario.

      Obrigado por mais uma visita.

      Eu não acho normal a realidade de que torcidas de times diferentes peguem ônibus diferentes no Brasil. Não aceito que se normalize uma situação destas e acho que deveria haver outra abordagem.

      Não acho que seja um paralelo válido também, uma vez que nunca ouvi falar de palestinos cometendo crimes dentro de ônibus nos territórios ocupados, muito menos em uma proporção que justificasse essa medida!

      Enfim, espero que você tenha gostado do meu novo post.

      Um abraço!
      Claudio

    • Mario Silvio

      12/03/2013 at 23:48

      Gostei muito Claudio. Como eu disse, NÃO acho normal, e é exatamente por isso que tomam medidas “anormais”.
      Em relação ao Brasil especificamente, não vejo mudança, pelo menos não no curto/médio prazo.

  • Mauricio Mohr

    12/03/2013 at 20:08

    Tirando o primeiro parágrafo, o seu texto é um primor. Parabéns, pelo deleite estético e informação de qualidade.

    • Claudio Daylac

      12/03/2013 at 23:26

      Olá, Maurício.

      Obrigado pela sua visita e pelo elogio.

      Já estou trabalhando nos próximos artigos. Volte a nos visitar e quem sabe na próxima você não gostará de todos os parágrafos.

      Um abraço,
      Claudio

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