Yin-Yang

23/07/2017 | Política

  

O Estado de Israel foi pensado de modo ideológico. Quando falo pensado, significa também construído. As pessoas, que realizavam o Sionismo, colocavam na prática o que escreviam e refletiam. A partir da Segunda Aliá, isso fica mais claro, por causa dos socialistas, que formaram as primeiras kvutzot e os kibutzim.

Já em 1948, quando houve a Independência, Israel era um “grande kibutz”. Esta experiência era o orgulho nacional, com kupá única, beit ieladim (casa das crianças), shitufiut (coletivismo), sistemas de famílias adotivas, etc. Nisso, entrava até a quebra da estrutura da família tradicional burguesa/religiosa.

De 1948 a 1977, os partidos trabalhistas (Mapai, Maarach, Avodá) governaram o País e compartilhavam desta ideia. O apoio oficial vinha através de gordo orçamento e incentivos. Israel era visto, no seu nascimento, como “ponto avançado de socialismo”, tanto que a URSS foi um dos primeiros a reconhecer o Estado Judeu.

Por outro lado, havia oposição, de 48 a 77. Pessoas que não viviam em kibutz, mas em cidades em desenvolvimento (que não recebiam os recursos prometidos e necessários para crescer). Sefaradim/Mizrachim, em grande maioria, que não abraçavam as ideias socialistas. O colega João Miragaya define a diferença: “vêm de uma tradição oriental, onde nem o socialismo, nem o estilo de vida secular eram comuns para a maioria”.

Já na década de 1970, nasce o partido Likud, unindo forças diversas de oposição, como o Herut (sionista revisionista, ligado ao extinto grupo paramilitar ETZEL) e Sionistas Gerais (liberais)”. Apoiou o Likud em 1977, grande parte do grupo Panteras Negras (apenas usaram o nome do grupo americano). Eram judeus de poder aquisitivo baixo, muitos sefaradim, que abraçaram a candidatura de Menachem Begin para superar os “ashkenazim”, representados pelos trabalhistas.

Neste ponto, importante citar Shlomo Ben-Ami, ex-embaixador de Israel na Espanha e ex-ministro do governo Rabin: “A sociedade israelense se divide em laicos e religiosos, não em pobres e ricos”.

Dias antes das eleições entre Begin e Shimon Peres, o animador do comício trabalhista, famoso apresentador de televisão, Topaz, bradou, em alto e bom som: “Aqui, temos os israelenses bons. Aqueles que construíram nosso país. Não estão os Tchartchanim (sefaradim/mizrachim)”.

Pouco tempo depois, na mesma praça Malchei Israel, de Tel Aviv, Menachem Begin respondeu: “Sefaradim, Ashkenazim, Iehudim (judeus)”. Ou seja, colocou todos no mesmo barco e quis ser o primeiro-ministro de todo o povo. Entretanto, a ruptura estava mais do que escancarada. Begin foi mais além neste embate. Logo depois de eleito, não esqueceu dos seus apoiadores de cidades em “eterno desenvolvimento” e avisou: “Vou ajudar aos pobres. Ricos não precisam de ajuda. Quem é rico, tem casa com jardim e piscina. Então, quem mora em kibutz é rico e não precisa de incentivos”.

Este foi o ponto de partida para uma quebra de paradigma, que durava desde 1948. Se, por acaso, os governos trabalhistas olhassem para todos, quem sabe aqueles esquecidos não teriam tanta gana de receber privilégios dados a terceiros.

O Likud tinha uma política social urbana, de atender seu eleitorado mizrachi, tradicional em termos religioso e nacionalista. O Liberalismo Econômico, que começa a aparecer na década de 1980, não veio exatamente dos governos de Begin (1977-84). Vale dizer que, mesmo que com política social, neste período, houve maxidesvalorização do Shekel e a maior inflação da história, desde 48.   

Hoje, Bibi tem política liberal clássica, pois deixa “o barco correr sozinho e não se mete”. Ele teve sucesso como ministro da Economia de Ariel Sharon, durante a Segunda Intifada, mas, desde 2011, o povo sofre com seus desmandos sociais.

Segundo o Movimento Kibutziano, no final da década passada, o kibutz, com suas indústrias, é responsável por 4,5% do PIB e sua população gira em torno de 2,5% do total. O povão urbano diz que “o kibutz acabou” ou “não é mais o que era”. Aquele “orgulho”, que citei no início do texto, acabou ou mudou.

A Queda do Muro de Berlim e o Fim da URSS, há 25 anos, mudaram o mundo.

Israel, orgulho socialista, do kibutz e da agricultura, virou a terra das startups, tecnologias, mercados financeiros e grandes fábricas. É um país capitalista selvagem, como Estados Unidos e China , apesar da ditadura comunista ainda se manter.

Atualmente, o povo sofre com a alta de preços dos imóveis e os baixos salários, resultados do neoliberalismo e liberalismo clássico de Bibi. Ao mesmo tempo que tem medo de votar em trabalhistas como Shelly Yechimovitch, chamada, pejorativamente, de comunista, socialista e sindicalista.

O circo está se fechando. Dificilmente, não teremos eleições legislativas e escolha do novo primeiro-ministro, ano que vem, em Israel.

O povo deveria ir às urnas a cada quatro anos. Ocorre que, no sistema parlamentarista, existe instabilidade. Qualquer nebulosidade política pode causar turbulência e, num piscar de olhos, dissolver o congresso.

Quase todos os partidos escolheram seus líderes. Em votação por lista, seriam os números um, prováveis premiês, em caso de vitória.

Bibi Netanyahu busca o tetra. Montou governo três vezes consecutivas (2009, 2013 e 2015). Mesmo investigado por corrupção, em alguns processos, ainda mantém eleitorado fiel.

Pesquisas de opinião recentes indicam a reeleição de Bibi, que faria entre 25 a 29 cadeiras na Knesset, de 120. O fato novo é troca na segunda posição. Avi Gabai, novo cacique trabalhista, teria entre 20 a 25. Yair Lapid (Yesh Atid) não passaria da primeira dezena.

A polarização Likud x Avodá é antiga, vem dos tempos da criação do Estado. O Mapai (trabalhista) governou por 29 anos seguidos (1948 a 77). De lá para cá, com Menachem Begin, Yitzhak Shamir, Ariel Sharon e Benjamin Netanyahu, foram três décadas de poder, praticamente. E ainda são. A hegemonia da direita nacional está longe de ser quebrada.  

Links: https://pt.wikipedia.org/wiki/Segunda_Ali%C3%A1
https://pt.wikipedia.org/wiki/Kibutz
http://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/1622719/jewish/Como-surgiu-e-se-divide-judeus-sefaradim-e-ashkenazim.htm?gclid=Cj0KCQjw78vLBRCZARIsACr4cxwAXgeqrYiqEAs5EkAYrBmAybQH97ewk1del268oiHNqfpx8VfyrhsaAgUAEALw_wcB
http://www.conexaoisrael.org/eu-sei-o-que-voces-fizeram-no-verao-retrasado/2013-06-21/joao

Foto: Daniela Feldman Niskier

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Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Yin-Yang”

  • Raul Gottlieb

    23/07/2017 at 16:18

    “Atualmente, o povo sofre com a alta de preços dos imóveis e os baixos salários, resultados do neoliberalismo e liberalismo clássico de Bibi. Ao mesmo tempo que tem medo de votar em trabalhistas como Shelly Yechimovitch, chamada, pejorativamente, de comunista, socialista e sindicalista.”

    2016
    PIB per capita do Brasil: USD 8.649,95
    PIB per capita de Israel: USD 37.292,61 (4,31 vezes mais que o Brasil)

    2009
    PIB per capita do Brasil: USD 8.553,38
    PIB per capita de Israel: USD 29.657,44 (3,46 vezes mais que o Brasil)

    Parece que o liberalismo clássico está funcionando muito bem, não é mesmo? Não admira que o eleitor tenha medo de votar em sindicalista e socialista.

    Penso que o povo no Brasil adoraria sofrer igual ao de Israel!

    Fonte dos números: Google, palavra chave “PIB per capita “. Vale a pena ver os gráficos no Google, Nelsinho. Compare também outros países socialistas x liberais. Por exemplo, o que aconteceu com a China quando ela fez uma discreta liberação da economia.

    O resultado da política de liberdade econômica é mais riqueza e salários mais altos. Ela acentua a desigualdade, mas também elimina a pobreza. O que você prefere: ser pobre igual ou rico desigual?

  • Nelson Burd

    26/07/2017 at 19:14

    O que dizes esta correto, mas o processo que levou aos protestos sociais de 2011 escancarou a seguinte realidade: pessoas nao conseguiam pagar suas contas basicas, como o aluguel, por exemplo. o ex-ministro da fazenda, yair lapid (2013-2015), dizia que “quem trabalha oito horas por dia, cinco dias por semana, em israel, vive bem”. infelizmente, ja nao eh verdade. fontes oficiais revelam que 30% da populacao tangenciam a linha da pobreza daqui. ong’s dizem que seriam 40%. muitos trabalham, e muito, mas nao conseguem dar conta do recado. naquele verao de 2011, ha o link abaixo no texto, explica-se o que houve. mais de 20% dos pais esteve reunido pelas ruas pedindo solucoes. eu falei no pib que o kibutz representa ainda hoje. no entanto, dizem que o kibutz acabou. comparar com o pib do brasil seria um bom parametro, mas prefiro colocar israel em um patamar de pais onde os impostos voltam para a populacao, com saude e educacao publicas e de qualidade. isto, sim, nao pode mudar aqui. se mudar, ai comeco a me preocupar. de mais a mais, ganhando muito ou pouco, pelo menos esta vantagem existe sobre o brasil. o imposto volta ao cidadao. mas, com todo respeito “a patria mae-gentil”, nao posso usar o brasil como padrao. falando de israel, prefiro pegar a europa, pelo menos.