Yom Haatzmaut: Uma Declaração de Independência

Certa vez fui perguntado:

–       Qual é a sua festividade judaica predileta?

Naquela ocasião respondi:

–       Meu chag judaico predileto é Yom Haatzmaut, o dia da independência de Israel.

Ele, então, me lançou um olhar suspeito, como se não houvesse entendido a minha resposta. Surpreso, reformulou sua pergunta:

–       Acho que não fui claro; me refiro às festividades judaicas, não às civis. Qual é, portanto, o seu chag predileto?

–       Yom Haatzmaut, lhe disse novamente.

–        Por que? Perguntou-me com um tom desconfiado.

–        O dia da independência de Israel é, para mim, o chag em que me sinto mais judeu; é o dia em que afirmo a minha identidade judaica em sua completude.

Ainda sem entender o ponto em que queria chegar, me disse:

–       Concordo que Yom Haatzmaut seja um dia especial, mas não acho que seja este um chag judaico propriamente dito. Na minha opinião, você confunde religião judaica com povo judeu.

–       Não esperava que você aceitasse a minha resposta com facilidade. Pergunto-te, então, qual é a base da religião judaica?

–       O Tanach, obviamente. Lá encontram-se os preceitos e leis que constituem a religião judaica.

–       Pois bem. Como essas leis se aplicam?

–       De diferentes formas. Temos os chaguim, o Shabat, o estudo em Yeshiva, etc.

–       Estou de acordo. Responda-me, então, quem realiza os chaguim? Quem cumpre o Shabat? Quem estuda em Yeshiva?

–       O povo judeu.

–       Concordamos, portanto, que, para que hajam os chaguim, o Shabat e o estudo em Yeshiva, temos antes um povo, correto?

–       Me parece coerente. Prossiga . . .

–       Os chaguim, o shabat e qualquer outra manifestação judaica não tem significado sem que haja alguém que lhes possa agregar tal significado. Somos nós, como povo judeu, que damos sentido à essas expressões judaicas. A razão de ser de todas essas manifestações não são inerentes a elas, mas emergem da nossa existência como povo. De fato, o reconhecimento de que somos um povo é que nos permite reproduzir a nossa identidade em forma de chaguim, shabat, etc. Dessa forma, portanto, o povo judeu antecede a religião judaica.

–       Como disse, seu argumento me parece coerente, mas creio que o judaísmo transcende qualquer existência física. Na realidade, ele está além do povo judeu que aqui se encontra. O conceito de povo judeu não existe sem o conceito de judaísmo, correto? Dessa forma, portanto, é o judaísmo que antecede o povo judeu e, não, o contrário.

–       Excelente ponto, lhe disse. Você fala de uma transcendência judaica; se bem entendo o seu ponto, você afirma que são os preceitos judaicos que dão sentido a nossa existência como povo, correto? O problema em tal pensamento é que você pressupõe um único judaísmo, uma essência inalterada desde a sua criação. Dessa forma, você equivocadamente negligencia todas as transformações e interpretações que foram realizadas ao longo da história judaica. Você marginaliza aqueles que perpetuaram e perpetuam o judaísmo. Você desconsidera o fato de que somos nós, enquanto seres humanos que optamos por sermos judeus. Ou alguém te impôs ser judeu? E mesmo que assim tivesse sido, quem o fez? Uma pessoa, eu imagino. Pessoa, esta, de carne e osso. Alguém que possui sentimentos, razões, paixões e interpretações particulares. O seu judaísmo é, portanto, o resultado dessa existência física. O nosso judaísmo é, manifestadamente, o resultado da nossa existência como seres humanos que consentem dia-a-dia em reconhecerem-se como membros de um povo. Dessa forma, o judaísmo é, e sempre foi, uma expressão humana; uma forma de expressão da nossa identidade. Sendo, então, o povo anterior aos preceitos, ou seja, sendo a existência anterior a essência, afirmo, novamente, que Yom Haatzmaut é o dia em que nós consolidamos e perpetuamos o nosso judaísmo em sua mais pura forma. Este é o dia em que damos sentido ao “ser judeu”. O dia da independência é, por essa razão, o meu chag judaico predileto.

–       Entendo. Ainda assim, acho que estás a falar de Israel e, não de judaísmo.

–       Pode ser. Institucionalizo, então, a minha nova religião: o Israelismo. É ela que me realiza como judeu. É ela que preserva a minha identidade judaica. Agora, me perdoe, estou atrasado para reza. Podemos continuar essa conversa depois?

–       Claro; mas como assim reza? Que reza se faz em Yom Haatzmaut?

–       O Hatikva. O hino nacional israelense.

–       Você é muito sarcástico. E quem é o rabino? Onde é feita essa reza?

–       Segundo a minha religião, somos todos rabinos. Você é israelense?

–       Sim, por que?

–       Seja bem vindo a minha seita. Você é o mais novo rabino do Israelismo. Os cultos serão realizados na Kikar Rabin, a nossa sinagoga. Quer vir?

–       Muito engraçado. Nos vemos depois.

–       Vá em paz, amigo. Estarei orando por você.

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Imagem extraída do site http://izharcohen.wordpress.com/2010/04/19/israel-independence-day/

Comentários    ( 10 )

10 comentários para “Yom Haatzmaut: Uma Declaração de Independência”

  • Claudio Daylac

    18/04/2013 at 00:44

    Bruno,

    Concordo com a sua leitura dos fatos, mas discordo da sua identificação do fenômeno: não vejo o “Israelismo” de maneira alguma dissociado do Judaísmo.

    É apenas a continuação de tradições que se iniciaram quando, nesta terra, chamada de Judéia, residiam os judeus e seus costumes se cristalizaram no Judaísmo.

    Os costumes dos judeus de Israel, criados ao longos dos últimos 65 anos, são novidades no judaísmo, como inúmeras outras (a monogamia, por exemplo, ou a sinagoga) que foram acrescidas ao longo do tempo.

    Chag sameach!

    • Bruno Lima

      18/04/2013 at 12:37

      Cláudio,

      Obrigado pelo comentário.
      Concordo integralmente com você. Apesar da ironia do diálogo, a minha idéia era mostrar como as manifestações civis possuem uma natureza judaica inerente. Como você, também não vejo o Israelismo dissociado do Judaísmo; na realidade, a pessoa com quem eu conversava é que via dessa forma – Yom Haatzmaut não era, na visão dele, “um chag judaico propriamente dito”. E essa é extamente a minha discordância com ele e a minha concordância com você.
      A questão é como costumes laicos (em oposição a monogamia ou a sinagoga) podem se tornar parte do “novo judaísmo”. O sionismo é uma manifestação judaica? Na minha opinião, sim; mas essa está longe de ser uma pergunta óbvia.

      Chag Sameach!

    • Las florindas del pueblo

      25/08/2015 at 00:43

      Ei Bruno lima, como professora de História poderia ter proposto a leitura do seu texto como exemplo de embate filosófico contemporâneo com todos os ingredientes necessários para fazer as cucas se “encaraminholar’ de questionamentos… inclusive sem entrar no mérito da questão central do texto (sionismo x semitismo) e sim a dialética… com todos os seus constituintes!!!
      Filosofia que se vive!!!

  • Raul Gottlieb

    18/04/2013 at 10:19

    Há, efetivamente, um ritual religioso judaico criado para Iom Haatzmaut. O Sidur utilizado pelas escolas em Israel – Rinat Israel – preparado pelo Rabinato ortodoxo do Estado inclui esta celebração no mesmo nível dos demais chaguim.

    Concordo integralmente com o Cláudio que o “Israelismo” é apenas mais uma coloração do judaísmo. Tão legítima, tradicional e arraigada no povo como o chassidismo, a kabala e tantas outras colorações (ou vertentes, ou facetas ou manifestações, como queiram). O fato de ser novo indica apenas que é recente, não o torna menos legítimo.

    A base da religião judaica não é o Tanach e sim a aceitação pelo povo do processo que o criou e o mantém. Sem o “naasse ve nishmá” o Tanach seria apenas um monte de palavras. É este processo milenar de ouvir e fazer que criou e mantém o judaísmo.

    É impossível pretender que Israel não faça parte deste processo.

    • Bruno Lima

      18/04/2013 at 12:46

      Obrigado pelo comentário, Raul.

      A questão, ao meu ver, é se Yom Haatzmaut é de natureza judaica “propriamente dita” (como questiona a pessoa com quem dialogo), ou cívica. Sendo uma manifestação do povo que vive em Israel (russos, árabes, beduínos, druzos, judeus, etc.), onde podemos identificar o caráter judaico do dia da independência? Afinal, não estamos falando do “dia da emancipação do povo judeu”, mas do “dia de independência do estado de israel” – essa diferença é, ao meu ver, significativa e coloca questões (como a pessoa com quem dialogo no texto coloca) sobre o aspecto judaico desse chag.
      Te coloco a mesma questão que coloquei ao Cláudio: Sionismo é uma manifestação judaica? Por que? Na minha opinião, sim. A minha justificativa é que “israelismo” e judaísmo são indissociáveis (o que tento mostrar no texto).

      De qualquer forma, Chag Sameach e um grande abraço!

  • Raul Gottlieb

    18/04/2013 at 21:36

    A tua pergunta é surpreendente!

    Sionismo é uma manifestação judaica importante desde o Lech Leachá de Abraão (na época ainda chamado Abrão).

    O sionismo (a vontade de construir um estado judaico na terra de Israel) está impregnado na cultura judaica desde as suas primeiras manifestações até as mais recentes.

    Aqui e ali um grupo ou outro declarou que o sionismo deixou de ser relevante (o primeiro não-sionista foi o terceiro patriarca que se radicou no Egito), mas estes interlúdios e estas manifestações sempre foram temporárias e em muitos casos limitadas a alguns grupos.

    Assim que sionismo é A manifestação judaica por excelência, não conheço argumento contrario a isto.

    Quem duvida disto?

    • Bruno Lima

      19/04/2013 at 00:12

      Raul,
      Me surpreende (e muito) o seu deconhecimento quanto a grupos ortodoxos anti-sionistas. Grupos, estes, que achariam surpreendente a relação que você [e eu] estabelecemos entre os dois. O nacionalismo é um fenômeno relativamente recente que não tem, necessariamente, bases religiosas (muitos cientistas políticos, aliás, argumentam ser o nacionalismo um substituo a religião – no sentindo de criar novos laços). O conceito de estado-nação, como argumenta Gellner e Anderson, é marcado pela passagem de um sentimento nacional (de origem religiosa, étnica, racial, etc.) para um ordem cívica. Dessa forma, se admitimos que o sionismo possui bases judaicas, o estado de israel, por ser democrático e não ser constitucionalmente regido [somente] por leis judaicas, entra, segundo muitos, em contradição com o judaísmo.
      Em geral, o sionismo é muito criticado (não por mim e por você) por entrar em conflito com certo preceitos judaicos (a espera do mashiach, halacha, etc.).
      Talvez a nossa forma de ver o judaísmo e o sionismo os tornem indissociáveis; mas a relação entre os dois está longe de ser óbvia. Se fosse óbvia, “a grande Israel” seria a verdadeira realização judaico-sionista – o que, obviamente, não é.
      Enfim, me surpreende a sua surpresa.

  • Natan Rolnik

    19/04/2013 at 13:30

    Bruno, quando li o seu texto, não pude deixar de comentar coisas que vieram à minha cabeça nesses meus primeiros quase 2 anos de aliá. Sem dúvida que Israel e Yom HaAtzmaut são coisas que devem ser motivos de alegria e estímulos para nos conectar com Deus (para aqueles que acreditam), e como você mesmo disse, que são coisas indissociáveis. Ser sionista faz parte de ser judeu.

    No entanto, algo que vem me incomodando desde o momento em que moro aqui, é o que muitos alegam como esse “Israelismo” – que talvez não seja o mesmo que você citou no texto. Coisas bizarras como: (1) judeus em Israel organizando festas de Natal; (2) pessoas que exigem a troca de “nefesh iehudi” por “nefesh israeli” do Hatikva; (3) judeus em Israel que negam ser judeus mas se afirmam israelense; entre outras coisas que somente estarmos na nossa terra, infelizmente, nos permite.

    Em resumo, faço minhas as palavras que um rabino Chabad (R. Menachem Brod , de Kfar Chabad) respondeu quando foi questionado se ele é sionista: “Se a definição de ‘Sionismo’ é a desconexão das raízes judaicas e se tornar um povo como outro qualquer, me oponho a isso – e assim também todos os líderes da Torá. Mas se sionismo é o amor a Terra de Israel, à nossa segurança, ao estabelecimento dos judeus nesta Terra – então nós apoiamos todas essas atividades”.

    Como seria bom se os dois extremos – o sionismo secular e a ortodoxia anti-sionista – vissem que eles não são somente opostos, mas sim que suas bases e ideais se complementam.

  • Raul Gottlieb

    20/04/2013 at 11:29

    Bruno,

    Li a tua resposta ao meu comentário e em seguida o comentário do Natan, onde encontrei a resposta que ia te dar:

    Sim, conheço os ultra-ortodoxos antissionistas e conheço também os comunistas antijudaicos. Mas ambos são extremos minoritários. Na minha resposta eu trato deles quando falo que “… aqui e ali certos grupos …”.

    Parece-me ser um erro exigir unanimidade para qualificar um fenômeno social dentro de um grupo.

    Eu não sigo – neste caso – estas posições extremas, nem de um lado nem de outro, mas respeito quem as segue – eles tem o direito de pensar assim. A meu ver, só não tem o direito de excluir ou deslegitimizar quem não pensa como eles.

    Também não penso que o extremismo seja um mal em si. Em certos casos me sinto muito confortável ao manter posições extremas.

    Contudo, para a grande maioria dos judeus do mundo hoje e sempre, a constituição de um estado em Eretz Israel é parte do judaísmo.

    As pessoas que criticam o Estado de Israel por não ser ele um Estado Haláchico são – em sua grande maioria – autointitulados “mestres da halachá”. São pessoas que pretendem ter o monopólio de definir o que pode e o que não pode em termos judaicos, o que é legítimo e o que não é.

    Em outras palavras, eles querem um Estado Haláchico com uma halachá definida segundo os seus termos e neste estado eles seriam os governantes.

    Isto está, a meu ver, mais ligado à luta pelo poder do que a qualquer outra consideração – religiosa, histórica, etc.

    Um abraço, Raul

  • Artur Benchimol

    04/05/2013 at 21:28

    Bacana a discussão, gente. Acho que meu comentário vai ser meio vaselina, mas não já está escrito que não existe povo judeu sem Torá e não existe Torá sem povo judeu?

    Acho mais fácil estabelecer uma mútua determinação do que tentar dar a um dos lados a vitória do ovo sobre a galinha.

    Não há como negar o caráter judaico de Yom Haatzmaut, mas também não podemos negar o caráter sionista da Tora.

    Ter um lar judaico para unicamente garantir a vida cotidiana, é retirar da Tora o seu potencial redentor e humano. Ter um estado para somente cumprir a Tora é inviabilizar a vida pragmática de um povo.

    É claro que a vida é mais importante que a verdade, visto que a própria halachá declara que a sobrevivência prescinde da maioria das mitzvot. Mas é muito perigoso que o sionismo se proponha a ser, na semiótica judaica, uma aparição messiânica, o fim da história judaica. O Estado de Israel é uma grande realização, porém parte de um Tikun do qual não devemos descansar.

    Não foi o Galeano que disse: “Pra que serve uma utopia, senão pra caminhar?”

    Abraço!

Você é humano? *