Yom HaShoá da Final da Champions

21 de Maio de 2008. Silêncio em Haifa. Era noite de Yom HaShoá, data de recordação do Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial. Bares e restaurantes fechados. Em Moscou, final da Copa dos Campeões da Europa, Chelsea x Manchester United. Jogaço.

Em dias tristes, pesados, como o próprio Yom HaShoá, Yom HaZikaron (Lembrança aos soldados caídos e vítimas do terrorismo), Yom Kipur (Dia do Perdão) e Tsha BeAv (9 de Av, pelo calendário Hebraico. Data que, por infeliz coincidência, houve inúmeras tragédias para o povo judeu, como as destruições dos Templo de Jerusalém), as emissoras locais interrompem as programações normais. No máximo, músicas e filmes temáticos são exibidos. Tratam-se de momentos de contemplação.

Acontece que, em termos esportivos, Israel está dentro da Europa. E o povo daqui adora futebol. Real Madrid x Barcelona agita mais a galera, do que Maccabi Tel Aviv x Hapoel Tel Aviv, ou Macabi Haifa x Beitar Jerusalém. Estamos falando da finalíssima da Champions League. Muitos israelenses, inclusive, compram pacotes e vão assistir, direto no estádio.

Mas era Yom HaShoá. O que fazer? Os canais não iam passar. O Sport 5, inclusive, ficou fora do ar. Assistir via internet, como se faz hoje, não era tão comum na época.

É verdade que os canais israelenses alteram os seus roteiros, mas as empresas de tv a cabo possuem também estações estrangeiras. A tv alemã SAT 1, sintonizada no 151, da HOT, transmitia ao vivo, Chelsea, do técnico Avram Grant, e Manchester United.

Avram Grant? Pois é, tem mais essa. Havia um israelense na jogada. Não sei se isto foi uma atenuante, mas o fato foi este: Em pleno Yom HaShoá, dia em memória das vítimas do Holocausto, víamos a final da Champions, pelo canal alemão.

Chovia muito em Moscou. Tempo regulamentar, 1 a 1. A decisão foi para as penalidades máximas. O jogador Terry, do Chelsea, escorregou na hora da cobrança, desperdiçou, e o Manchester levou a taça.

Na minha Haifa, não houve foguetes, nem bandeiras, apesar de muita gente ver o jogo pelo canal alemão. Ainda era Yom HaShoá. Avram Grant deixou o Chelsea, tempos depois. Entretanto, este dia ficou marcado em Israel pelo “Yom HaShoá da final da Champions”.

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Yom HaShoá da Final da Champions”

  • Marcelo Starec

    18/01/2015 at 02:54

    Oi Nelson,
    Interessante…Nem sempre é fácil contemplar duas situações tão diferentes acontecendo ao mesmo tempo…Acho que esse artigo, na verdade, dá muito o que pensar em vários aspectos da nossa vida….
    Abraços,

    • Nelson Burd

      18/01/2015 at 08:35

      Exatamente, Marcelo. Dilema parecido teve o jogador israelense Revivo, quando passou pelo Celta, da Espanha. Era Yom Kipur e tinha jogo. O que fazer? Ele pediu dispensa uma vez e recebeu. Mas, e no ano seguinte, o que fazer? E se nao liberam…

    • Raul Gottlieb

      18/01/2015 at 20:22

      Se não liberarem e se for importante para ele, basta não jogar e pedir para ser desligado.

      O emprego é uma escolha. A pessoa x escolhe trabalhar na empresa y porque convém a pessoa x e porque convém à empresa y.

      Se um dos lados fizer demandas inaceitáveis para o outro, cabe ao lado incomodado romper o contrato.

      Trocar de emprego ou até de ocupação não chega a ser um drama. Principalmente para um jogador de futebol de primeira ou de segunda linha num mercado aquecido.

      Quanto à final da Champions durante o Iom Hashoá, quem quis assistir assistiu discretamente para não criar comoção gratuita nos demais. É assim que funcionam as sociedades. Quando a Marina quer ler e eu quero dormir, ela lê em silêncio e eu viro para o outro lado. Sem drama.

    • Nelson Burd

      19/01/2015 at 09:08

      Correto, Raul.
      Eu creio que vale a tolerância, em ambos os casos.
      Compreender o desejo do outro, para ser compreendido.

  • Raul Gottlieb

    19/01/2015 at 11:26

    É Nelsinho, o mundo seria muito melhor se as pessoas contivessem ao mínimo o seu impulso invasivo. O que o ortodoxo tem a ver com o que eu como e o que eu tenho a ver com a forma como ele se veste, não é mesmo?