Yom Kipur em Israel: impressões pessoais

Yom Kipur em Israel é um dia muito diferente. Para os que jejuam e rezam, e para os que não. É muito diferente de todos os outros dias do ano, e muito mais diferente do que os judeus que vivem no Brasil conhecem ou podem imaginar.

Em Yom Kipur não há carros. Nenhum. Ponto. Não em Jerusalém, não em Tel Aviv, não na estrada. Desde tempos imemoriais a sociedade como um todo entrou em acordo que neste dia não se usa o carro, nem quem está em casa comendo sanduíche de presunto. Aliás, seria um perigo, pois as ruas são tomadas por enxames de crianças doidas, andando de bicicleta, patins e skate, tomando conta do asfalto. É uma cena impressionante de se ver, tantas crianças se divertindo no meio das maiores avenidas da cidade, descendo as ladeiras a toda velocidade, pra subir tudo de novo e começar novamente. A ausência de veículos faz com que a qualidade do ar melhore muito, mas não chega a consertar o dano que são as fogueiras na noite de Lag baOmer.

A cor de Yom Kipur é o branco. Ninguém havia me avisado, e no meu primeiro Yom Kipur que passei por aqui, fui à sinagoga com uma camisa meio vermelho escuro, bordô, cor de tijolo, ou qualquer outro nome que minha mulher saberia identificar melhor que eu. Lá na sinagoga estavam todos de branco. Todos. E eu no meio, um pouco mais vermelho que a camisa. Aliás, Yom Kipur em São Paulo era (e ainda é) o dia para se usar a melhor roupa que se tem. Os homens usam aquele super terno, digno de conhecer a rainha Elizabeth. As mulheres nem se fala, com vestidos decotados, jóias caras, cabelos super lisos e bastante maquiagem, tudo de bom tom, claro. Aqui não, todo mundo vai mal vestido, shleper mesmo, camisa branca qualquer, obviamente amassada, porque ninguém passa roupa no Oriente Médio. Aqui se leva a sério o não-uso de sapatos de couro, então é o dia em que o chazan sobe pra cantar de crocs mesmo.

Yom Kipur é levado tão a sério, que até ano passado se mudava o horário do país inteiro. Aqui em Israel é o final do verão, e o fim de semana anterior a Yom Kipur costumava a ser a data do final do horário de verão. Às vezes YK cai em Outubro, e tudo bem, mas este ano cai bem cedo, e seria um desastre mudar o horário tão cedo. Não que isso tenha incomodado os governantes, porque por décadas era essa a “law of the land”. Se Yom Kipur é um dia inteiro, de pôr do sol a pôr do sol, que diferença faz o horário que o relógio está mostrando?! Pois é. Finalmente este ano o fim do horário de verão foi desvinculado do dia do perdão, e terminará no dia 27 de Outubro, assim como nossos vizinhos europeus…

Este ano se relembra os 40 anos da guerra de Yom Kipur, que foi uma das mais duras que o país já conheceu. Na televisão muito se fala sobre a guerra nas semanas que antecedem YK. Além deste dia servir um pouco para o balanço pessoal sobre o ano que passou, YK também é um dia de balanço nacional, sobre os mortos na guerra, o não-processo de paz e tudo mais que aflija a alma do israelense.

Em Yom Kipur não tem propaganda de Big Mac na TV. Motivo: os canais abertos param de transmitir! (calma, gente, alguns canais da TV a cabo continuam, e sempre dá pra ver um Grey’s Anatomy por streaming). A maior parte dos negócios que abrem no Shabat ao longo do ano também fecham em Yom Kipur, como restaurantes (óbvio!), shopping centers, aeroportos, etc. Quem fatura mesmo são as lojas que consertam bicicletas.

Imagens de Yom Kipur em Israel

Televisão sem programação

As fotos abaixo foram tiradas às 13:30 do dia 13/09/2013, algumas horas antes do começo de Yom Kipur.

Jerusalém durante o Yom Kipur

As fotos abaixo foram tiradas durante o Yom Kipur de 5772 em Jerusalém por Gabriel Guzovsky.

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Yom Kipur em Israel: impressões pessoais”

  • Raul Gottlieb

    13/09/2013 at 12:46

    As lojas que consertam bicicleta faturam antes e depois de YK. No dia está todo mundo de molho mesmo. É um dia sem buzinas, o que muda completamente o cenário no país todo.

  • João K. Miragaya

    13/09/2013 at 21:40

    Certa vez li um artigo do atual ministro das finanças, Yair Lapid, que dizia que as convenções pessoais são mais eficientes do que as leis coercitivas. O exemplo era a diferença entre o Shabat (sábado) e o Yom Kipur.

    Há uma lei que proíba a abertura de estabelecimentos comerciais durante o Shabat, mas que efetivamente não funciona. Em qualquer cidade do país há lojas, restaurantes e cafés abertos durante o sábado. Paga-se a multa e lá se vai a coerção. Não há, no entanto, nenhuma lei que proíba que as pessoas saiam de carro em Yom Kipur. A população simplesmente não o faz. É um acordo tácito, mas respeitado por todos.

    Se não fosse o sharav (onda de calor) que nos assola durante este dia do perdão, amanhã eu caminharia até Abu Gosh, vilarejo árabe próximo à minha cidade. Gostaria de ver como os árabes se relacionam com Yom Kipur.

  • Mario Silvio

    19/09/2013 at 01:41

    Uau! Como experiência deve ser muito interessante passar um Yom Kipur em Israel. Lembro muito bem que eu costumava ir até a José Paulino (de carro) só para ver todas as lojas fechadas.

Você é humano? *